Meduzza Overdrive – Ousadia e personalidade em seu primeiro álbum: Minus One!
Atuar na cena brasileira do rock independente é uma tarefa árdua, inglória e por vezes, desanimadora. E quanto se trata de apresentar seu trabalho autoral, fica ainda mais desafiadora. Poucos espaços, e os que aparecem são poucos os que apresentam uma estrutura mínima para desempenhar seu trabalho ao vivo. Cachês que às vezes não comtemplam a compra de um cabo ou um capotraste. Mas, quem persiste e acredita na força de seu material, acaba invariavelmente fortalecendo seu nome, e fazendo com que mais e mais pessoas conheçam e se lembrem de sua música. É assim com a banda Meduzza Overdrive, de São José do Rio Preto/SP, que há alguns só faz crescer sua presença nos palcos da cidade e região. A banda lança agora em 2026 um novo trabalho autoral. Se trata de “Minus One!”
Fundada em 2023, o Meduzza Overdrive tem sua formação, Johnny Villalobos (vozes), Carioca (Guitarra), Paulo Pavão (baixo) e Gabe Payne (Bateria).
Ao longo de sua trajetória a banda lançou alguns singles, como “Slingshot” e “Fleshmeat Road Ballad”. Este último gerou um divertido e (excelentemente) bem produzido vídeoclipe.
O modelo de um registro ao vivo traz pontos negativos e positivos. O sentimento de “live” mostra entrosamento e a execução simétrica, fruto de muito ensaio. Além do famoso “punch” que as músicas ganham quando levada em modo live. E claro que, uma produção de estúdio, com tratamento específico nos canais gerariam uma outra visão das músicas. Mas, somando pros e contras, é tranquilamente aplicável a capacidade de assimilar e entender as propostas sonoras das músicas e seus detalhes.
As 10 faixas apresentadas em “Minus One!” se mostram eficientes para representar o que a música do Meduzza representa, onde todos os elementos podem ser conferidos tranquilamente, sem algum ou outro instrumento estar “escondido” na música. Uma sonoridade que flerta com um passado distante do rock, mas temperado com um som característico dos anos 90 e 2000, principalmente na sonoridade norte americana.
“Smoking Dead Flowers” – Riffão com over-efeitos, baixo impaciente, uma deliciosa sonoridade setentista e repaginada. Tons graves nas vozes (e drivers nos refrões), levada meio quebrada da batera, abrindo de forma contagiante o disco.
“Slingshot” – Abre com o espírito de Hendrix nas melodias, após a voz entrar nos deparamos com um sentimento bem Red Hot (baixo e voz). Mistura o passado e o (quase) presente, numa dinâmica harmônica excelente.
“No Touchdown” – Fraseados descompromissados das cordas (2 guitas juntas). O vocal na linha rapeada e a cozinha garantem o rótulo groove da faixa. Cresce o peso no interlúdio/refrão, com o wah wah comendo quente. Baixão bem distorcido. E let the fire burning.....
“Favourite Astronaut” – Baixo cadenciando, licks cortando a melodia, vocais declamando enquanto o wah wah enfeita as harmonias. Refrão grudento e que traz na memória alguns relances do rock alternativo americano.
“Reckless Girl” – Baixo começando os trabalhos, vozes meio ao fundo, com um clima mais alternativo. Faixa vai crescendo, batera vira tudo a todo momento, e retoma o clima intimista em algumas passagens. Nessa alternância entre a calmaria e a porrada, com o som do baixo sabiamente lá em cima.
“Kali N Valki” – Chimbau e licks como cartão de apresentação. Voz limpa se enfia ali no meio deles. 1h20 entra o peso de tudo, trazendo a agressão pra faixa, o vocal masca drivers com ajuda dos backings. Um dos momentos mais pesados do disco. E a faixa vai acelerando culminando num solo carregado de melodia e sem fritação.
“Misty Heights” – Um efeito de dobras nas cordas, já começa nervosa, com baixo marcando o final das estrofes. Wah wah chama a segunda parte da faixa. Soa harmonicamente angustiante mas forte no propósito.
“Manuela” – Fraseados pesados e grooveados, com vocais graves, até mesmo piscando para Elvis. As harmonias misturadas deixam um bom cheiro de malandragem.
“Flashmeat Road Ballad” – baixo chamada a levada da música, que cai pra um rockabilly mais denso, como leve lembrança em Doors. Na transição estrofe/refrão o vocal fica mais agressivo. A faixa propõe uma jornada bem humorada e despojada, num tema liricamente ácido e sombrio.
“Concerning”, andamento rápido, colando um pouco entre a surf music e o punk rock (até pelos backings). Com energia total e pegada contagiante, é a faixa ideal para shows.
“Burn the Whole System” – Licks nervosos e vocais declamados no início. A música pega fogo nos próximos segundos, a mistura de punk com alternativo dá as caras novamente. E banda aproveitou pra interagir bem com o público durante esta faixa.
“LiftOff” – E o disco se encerra com andamento mais cadenciado, mas com bom peso. A melodia aqui domina mais que a energia agressiva. Solo de guitarra aparece cheio de vontade na faixa. Uma bela viagem sonora.
O Ready to Rock conversou com a banda, que nos mais detalhes sobre o Minus One! e outros detalhes da carreira da banda.
Ready to Rock - “Minus One!” traz 12 faixas do Meduzza,
captadas ao vivo. Onde foram feitas as gravações e como estruturaram este
processo para que o resultado sonoro ficasse o mais perfeito possível em termos
de audição?
Meduzza Overdrive - R: A princípio, a ideia era simplesmente
ter o nosso primeiríssimo show autoral gravado, para postar no YouTube e
guardar como uma lembrança daquele momento. Nós gravamos no finado Odin Bar,
com a gravação, a mixagem e a masterização feitas pelo nosso amigo Betinho.
Naquele momento, nossa intenção nunca foi lançar aquilo como um álbum, então
também não tínhamos a preocupação de buscar o resultado mais perfeito possível.
A ideia era, acima de tudo, registrar aquele grande momento da banda e guardar
a energia que foi aquele show. Depois, com muitos pedidos dos fãs, acabamos
decidindo transformar essa gravação em um álbum e lançar o Minus One!.
RR
- Sabemos que os custos de uma produção em estúdio, envolvendo captação,
ajustes, recortes, mixagem e masterização, não são exatamente baratos e nem
sempre o resultado final fica magnífico. Este seria também um fator que
consideraram para escolha do modelo “live”?
MO - Acreditamos que isso funciona de uma maneira diferente
para cada situação e para cada banda. No nosso caso, a Meduzza é uma banda que
coloca muita performance e energia nas músicas, então acreditamos que captar a
visceralidade de um show acaba deixando muito mais a nossa marca do que uma
gravação de estúdio. Não é que sejamos contra o estúdio ou que um trabalho de
produção não possa chegar a um resultado incrível, mas sentimos que,
independentemente de quem esteja produzindo, existe uma energia no ao vivo que
faz parte da identidade da banda e que seria difícil reproduzir da mesma forma
em uma gravação de estúdio.
RR
- A sonoridade do Meduzza nos traz lembranças de sons mais antigos, como o hard
60/70 misturado a uma pegada mais moderna de bandas dos anos 2000. Como as
influências de cada um moldaram essa sonoridade?
MO - Uma das coisas mais interessantes da banda é que cada
integrante tem o seu próprio “habitat natural” dentro da música. O Johnny,
nosso vocalista, é fã de The Clash e de bandas com músicas mais simples,
diretas, retas, cruas e experimentais. O Carioca, nosso guitarrista, já tem
como alicerce a música brasileira, trazendo como inspiração nomes como Zé
Ramalho, Raul Seixas, além de outros artistas antigos e atuais do rock
alternativo brasileiro, da MPB e da Bossa Nova.
Já o Paulo, nosso baixista, busca inspiração principalmente nas bandas de hard
rock psicodélico dos anos 70. Enquanto isso, o nosso baterista, Gabe, consome e
se inspira em nomes mais atuais, como Pearl Jam e Red Hot Chili Peppers.
E, mesmo cada um tendo o seu próprio “habitat”, todos ouvem e consomem música
de tudo quanto é tipo, trazendo essas influências para dentro das composições.
Talvez seja justamente por isso que, muitas vezes, a Meduzza pareça uma
verdadeira salada das melhores frutas do rock!
RR
- Em sons como, “Slingshot” e “Favourite Astronaut” por exemplo as cordas
pendem bem para sonzeiras antigas. Outras tem uma pegada mais funk o’ metal,
alternativo ou até punk, como em “Reckless Girl” ou em “Concerning”. Como vocês
trabalham os arranjos?
MO - Existem muitas formas de uma música nascer dentro da
Meduzza. Às vezes, ela surge naturalmente de uma jam durante os ensaios; outras
vezes, o Carioca ou o Paulo trazem um riff principal e o Johnny desenvolve a
letra e a melodia a partir dele. Na maioria das vezes, porém, o Johnny chega
com uma ideia inicial de letra e melodia, que é apresentada aos outros
integrantes e, a partir das contribuições dos quatro, vai ganhando novos
arranjos, formas e até mesmo uma identidade bem diferente daquela ideia
original.
Talvez o melhor exemplo disso seja “Misty Heights”, que nasceu de um improviso
durante um ensaio de madrugada no sítio do nosso baterista. A música surgiu
praticamente pronta, a partir de uma jam completamente espontânea, e acabou
contando uma história tão absurda quanto a situação em que foi criada: um cara
que é abduzido por uma alienígena, passa por experiências sexuais e, no fim,
acaba se apaixonando por ela. É um bom exemplo de como, dentro da Meduzza,
nunca sabemos muito bem onde uma música vai parar até começarmos a tocar.
RR
- Como funciona na banda o processo de composição. Todos participam das ideias?
MO - O processo de composição das letras é bem parecido com o
dos arranjos. Normalmente, o Johnny é quem escreve a maioria das letras da
banda, seja trazendo uma ideia de casa ou desenvolvendo a letra em cima de um
instrumental criado durante os ensaios. Mas isso não impede que os outros
integrantes também componham — e, na verdade, isso acaba enriquecendo muito o
processo, porque cada um tem seu próprio jeito de “canetar” e uma maneira
diferente de enxergar e escrever uma música.
O Johnny gosta de contar narrativas, trabalhar diferentes pontos de vista e
criar músicas mais “farpantes” e “audaciosas”. O Paulo costuma escrever sobre
aquilo que não se enxerga, mas se sente. Já o Carioca e o Gabe têm mais
facilidade para criar verdadeiros universos dentro das músicas, com letras que
beiram a psicodelia e o surrealismo.
No fim, essas diferenças acabam se complementando e ajudam a construir a
identidade da Meduzza.
RR
- Do que se trata a faixa “Kali N Valky”?
MO - “Kali N Valky” é uma homenagem do Johnny às duas cadelas
Rottweilers do Gabe, as mesmas que estampam a capa do álbum. É,
propositalmente, uma das letras mais simples já escritas pelo Johnny, quase
como uma cantiga infantil, descrevendo de forma bem-humorada as duas cachorras
aprontando pelas ruas:
"Correndo atrás de pernas e de crianças também, você vai achar essa
gangue, comendo seu tênis novo. Kali e Valky andando pela esquina, cheirando a
sarjeta, todo mundo quer uma mordida."
Apesar da simplicidade da letra, o instrumental vai justamente na direção
contrária: a música cresce até terminar com um solo sinistro, daqueles de fazer
careta. É essa mistura entre uma letra quase infantil e um instrumental pesado
que dá à faixa a personalidade que ela tem.
RR
- Qual seu astronauta favorito (risos)? Qual a história dessa música?
MO - A astronauta favorita do Johnny é a Ellen Ripley, da
franquia Alien!
Sobre “Favourite Astronaut”, a música, composta pelo próprio Johnny,
inicialmente contava a história de um astronauta à deriva no espaço que acaba encontrando
uma mulher. Poético, não?
Mas, como o Johnny é um grande fã de ficção científica, ele acabou analisando
as letras das outras músicas e decidiu transformar o álbum em algo maior,
criando uma narrativa que conecta, de alguma forma, quase todas as faixas de Minus
One. Os outros integrantes nunca deram muita bola para esse background e
continuam tratando as músicas como histórias singulares e desconexas — o
Carioca, inclusive, até hoje não sabe a tradução de algumas delas.
Mas o Johnny bate o pé e garante que a história por trás do álbum é canônica e
verdadeira. Se você deixar, ele conta tudo para você — só vai levar umas três
horas. Então é melhor ouvir o álbum.
RR
- Como tem sentido a repercussão de “Minus One!” pelas redes?
MO - Minus One! é quase como um presente para os nossos fãs mais próximos, que não paravam de pedir incessantemente: “QUERO MÚSICAS PRA OUVIR! QUERO MAIS MÚSICAS DE VOCÊS! ME DÊ! ME DÊ!”
Então, para nós, Minus One! é uma realização singela, e estamos felizes com a repercussão, mesmo que ainda seja pequena. O álbum representa um momento de amadurecimento e crescimento da banda. É um registro de quem éramos naquele momento e que, daqui a alguns anos, provavelmente vamos ouvir de novo e pensar: “Quem foi o idiota que permitiu isso?”
RR
- Sabemos de todas as dificuldades de bandas que se propõe levar seu material
autoral para o público. Como o Meduzza lida com isso e como o público tem
aceitado seu trabalho próprio nesses últimos anos?
MO - Desde o primeiro momento em que compusemos nossa primeira
música autoral, nós a introduzimos no nosso show de covers. E foi assim com
cada música nova. Às vezes, avisamos: “Aí, galera, se liga nessa próxima
música, ela é nossa!”. Outras vezes, preferimos surpreender o público, tocando
sem avisar que é uma composição nossa e só revelando depois dos aplausos — e,
às vezes, nem revelamos!
A Meduzza Overdrive acredita muito no potencial das bandas locais e na
importância de criar e apresentar material autoral. Por isso, sempre vamos
incentivar o surgimento de novas músicas independentes, além de estimular o
público a apoiar e fortalecer a cena local do rock.
E fica um recado para as bandas: toquem suas autorais! Se arrisquem! A
vida é curta demais para engavetar canções que podem mudar a vida de uma
pessoa. Seus novos fãs, estão logo ali, esperando para serem presenteados com a
sua música!
RR
- Tenho acompanhado a trajetória da banda e vejo que apesar da velha história
de falta de espaço para bandas independentes, o Meduzza sempre tem se
apresentado com boa constância em Rio Preto e região. Como buscar se inserir
nesses shows e nesses locais?
MO - Primeiro de tudo, tem que botar a cara, independentemente
da situação. Muitas vezes o cachê não vai compensar, muitas vezes o show vai
ser um fracasso, muitas vezes você vai sair no prejuízo, mas você não pode
abaixar a cabeça. Se tiver três pessoas no público, faça o maior show da sua
vida para aquelas três pessoas, e sua noite não terá sido em vão.
Ser uma banda não é só aprender a tocar músicas, subir em um palco e
reproduzi-las. Uma banda tem que salvar a noite de quem teve um dia péssimo.
Tem que subir no palco como se fosse o último dia na Terra, o último show da
vida.
O Johnny brinca nos shows dizendo que o rock “é a única coisa que a gente sabe
fazer”, mas, na verdade, a frase certa seria: o rock “é a única coisa que a
gente QUER fazer”. E é justamente essa vontade que acaba atraindo mais
shows, mais contratantes, mais visibilidade, mais cachês, mais seguidores e,
principalmente, mais oportunidades de levar o rock ’n’ roll para todo lugar.
RR
- Me fale de uma lembrança de um show em específico de tenha sido marcante para
você(s) e porquê.
MO - Um dos shows mais importantes da história da Meduzza foi
justamente o primeiro show autoral, que acabou dando origem ao Minus One!. Mas
existem muitos outros momentos que marcaram a nossa trajetória, como o nosso
primeiro show no Vila Dionísio, quando ganhamos o concurso “Novos Talentos” do
bar.
Aquela noite foi do caralho! A energia estava absurda, tanto em cima quanto
embaixo do palco. Foi tanta adrenalina que, em alguns momentos, parecia que
todo mundo estava prestes a ter um infarto coletivo!
RR
- Pelas informações enviadas, a banda está compondo músicas para um segundo
álbum. Como está o processo e quando pretende lançar? Será no mesmo formato de
captação ao vivo?
MO - O próximo lançamento já está quase aí! Ainda estamos
terminando os últimos arranjos das canções, que, dessa vez, serão totalmente em
português, e em breve iniciaremos as gravações oficiais.
Sobre o método de gravação, ainda não decidimos se iremos fazer em formato live
ou em estúdio. Talvez uma mescla dos dois? Quem sabe?
O que podemos dizer é que esse álbum está sendo muito divertido de compor, e
estamos bastante animados e ansiosos para poder compartilhar tudo com o
público. E fiquem espertos, porque em breve vamos lançar uma Live Session no
YouTube, tocando algumas das músicas inéditas do novo álbum!
O Meduzza conseguiu em poucos anos algo almejado por muitas bandas e artistas autorais: encontrar seu caminho próprio, definir seu estilo próprio de criar sonoridades rock. E, em tão pouco tempo já criou temas poderosos e cheios de personalidade. Muito ainda a percorrer, a amadurecer. Mas a trilha inicial já fora definida. Talento e atitude já lhe são atributos garantidos nessa viagem de carreira. Esperamos em breve novos sons e que cada vez mais gente daqui e de fora possam ter contato com esse material.
CONTATOS
https://open.spotify.com/intl-pt/artist/6c9wcopk1ONtKeT8FMbcCi?si=6S1cOu5KTR2sfNF64al7IA
https://www.instagram.com/meduzzaoverdrive/



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