Rygel: o impacto da tecnologia na sociedade, em seu sexto álbum, o conceitual “404”

 


Dentre as dezenas de bandas que edificaram suas carreiras na cena brasileira do rock e metal ao longo das últimas décadas, sempre teremos algumas que nos despertam um desejo enorme de consumir seus álbuns por um elemento muito singular: a personalidade. Aquele carimbo que elas aplicam em sua sonoridade, fazendo com a que a mesma ganhe contornos de originalidade e marca registrada. Quando se houve alguma música, de qualquer álbum, sabemos tratar-se daquele artista. É isso que encontramos nos trabalhos da banda Rygel, natural de Santos, litoral do estado de São Paulo.

 

Desde o primeiro álbum, “Realities... Life as It Is”, de 2009, mais quatro álbuns se sucederam e em todos a banda mostrou admirável evolução e amadurecimento, enquanto músicos e compositores. A melodia de seu heavy metal sempre presente, foi mesclada a elementos mais pesados da família, como thrash metal por exemplo. Tudo arranjado com muita técnica e esmero.

Seu último álbum “Chronicles”, foi lançado em 2024. Agora, o time atual do Rygel, com Wanderson Barreto (vocal/guitarra), Matheus Manhães (baixo/clean vocal), Pedro Colangelo (bateria) e Lucas Andraad (guitarra), se prepara para lançar seu novo álbum, “404”, uma viagem conceitual abordando a tecnologia e seu impacto na humanidade.

 

Do novo disco, a banda disponibilizou 2 singles, que geraram dois videoclipes, mito bem produzidos.

 

“Reboot Failed” tem essa injeção de modernidade, junto ao clássico peso do som da banda. E até uns atrevimentos mais brutais nas vozes. Elementos de prog-metal deliciosamente perceptíveis na faixa. Agressão técnica e melódica do mais alto gabarito.

 

“I’m Your Ghost” vem naquela linha soberba da melodia pesada que remete um pouco a alguns trabalhos do Nevermore. A força dos backing nos refrães é um show à parte. Partes intrincadas das peças de bateria e um som do baixo bem destacado dão o tempero rítmico para fazer dessa uma grandiosa faixa.

 

 

O Ready conversou com o baterista Pedro Colangelo, que nos conta as novidades que cercam “404” e os planos da turma para os próximos meses.

 

RR - A banda anunciou recentemente o novo álbum, “404”, e que se enquadrará no padrão conceitual. Qual o conceito temático do disco?

Pedro Colangelo - Desde o início, o “404” foi um trabalho que tínhamos como objetivo nos comunicar com a sociedade atual. Pra isso, percebemos que era necessário que abordássemos algum tema relevante e atual para que as pessoas se identificassem com ele. Então, fizemos essa pergunta a nós mesmos: o que mais aflige a sociedade atualmente? Imediatamente nos veio a resposta: o caos tecnológico que as redes sociais e o ambiente virtual têm se transformado. Do início ao fim do álbum, narramos a história extrema de uma pessoa que se tornou consumida pelos feeds de rolagem e pelas timelines das redes sociais. Alguém que está imerso nesse vício digital e que não consegue se livrar dele de jeito algum. A dor, conflito, angústia e dúvidas dele em relação a isso são os principais pontos que expressamos pelas letras do “404”.

 


 

 

RR - Foram lançados os singles “Reboot Failed”, e mais recentemente, “I’m Your Ghost”, ambos excelentemente produzidos diga-se de passagem. Nos conte destas produções?

 

PC - Estes dois clipes são bem especiais para nós. Todos os clipes (estes dois e do terceiro single que ainda será lançado) foram gravados por Caike Scheffer e a produção e edição foram realizadas inteiramente pelo nosso baixista, Matheus Manhães, que também é um designer extremamente habilidoso e dedicado. Todos os clipes foram gravados em fundos em que Matheus pudesse utilizar como chroma key para individualmente nos destacar do fundo e poder nos teletransportar para o ambiente cyberpunk do “404”. Foi isso que permitiu que a banda também se situasse dentro da mente conturbada do nosso protagonista e podendo fazer parte de sua história ativamente. Em média, por se tratar de uma produção completamente independente, cada clipe precisou de 3 meses para ficar pronto, mas temos visto que todo o trabalho tem valido muito a pena.

 

 

RR - As duas faixas trazem a tradicional mescla de peso (no flerte com o thrash) e melodia da banda, mas com elementos técnicos cada vez mais desafiadores. O que exala em vários momentos uma veia de prog-metal. Pode-se dizer que este (prog-metal) é também um dos caminhos do Rygel?

 

PC - Isso chega a ser muito curioso, porque mesmo com uma mudança significativa da nossa sonoridade desde os primeiros álbuns (que de fato eram prog), frequentemente o nosso som ainda é associado a algo progressivo pelas pessoas. E vamos ser bem sinceros dizendo que esses flertes ao metal progressivo são completamente acidentais. Nunca houve um momento das composições em que realmente parávamos tudo e falávamos uns para os outros: “ok, agora ESTE trecho da música será baseado em metal progressivo”. Nós achamos isso bem legal, na verdade, porque imaginamos que isso seja resultado de uma sinergia silenciosa que tem sido construída ao longo de anos trabalhando juntos. O Wanderson (guitarra/vocal) nunca foi um cara muito do metal progressivo, mas eu (Pedro Colangelo, baterista) sou fanático por Dream Theater. Já o Matheus (nosso baixista) é fanático por Tool. O Vandré (nosso outro guitarrista) também colabora muito pra isso, principalmente por ser um cara muito virtuoso e técnico que toca as coisas mais complicadas que você pode imaginar. Como o Wanderson tem uma influência muito forte do thrash clássico dos anos 80, como Testament e Kreator, a nossa música é resultado direto dessa colisão entre as mais diferentes vertentes do metal, o que faz que ao mesmo tempo tenhamos impressão de ouvir, na mesma música, algo muito que o Testament faria num universo paralelo junto do Dream Theater. Tá aí a dificuldade de responder a pergunta: “qual estilo de metal vocês tocam?” (risos).

 


 

 

RR - Os dois vídeos-clipes têm um resultado visual impressionante, mesclando imagens da banda com passagens teatrais/digitais do tema. Qual a história destas faixas dentro do conceito de “404”?

 

PC - De forma bem específica, primeiro, “Reboot Failed” nos apresenta ao desespero do nosso personagem: mostra como, ao acordar, já surge a necessidade de obter seu aparelho em mãos. É como se ele só estivesse vivo se estivesse presente nas redes sociais. O desfecho do clipe mostra algo mais angustiante ainda, que, devido a sua noção completamente deturpada da realidade, até mesmo quando ele acha que se retirou das redes sociais, isso na verdade também é um delírio. É neste momento em que ele acorda com os óculos de VR. Até os momentos em que ele acha que está fora do mundo virtual, ele está dentro dele.

 

Já “I’m Your Ghost” é uma música que mostra a visão do vilão de toda essa história. O vício de nosso personagem se personificou no próprio avatar que ele utilizava no mundo online (ou seja, seu vício se tornou o exato “reflexo” do que ele era e tentava ser nas redes sociais). Essa música inteira parte do ponto de vista de seu vício, mostrando como que esse vício é capaz de submeter nosso personagem a essa tortura infinita, mesmo que nosso personagem saiba que está sofrendo no fundo.

 

 

 

RR - Nos dias de hoje você acredita que o vídeo ainda é uma ferramenta poderosa pra divulgação massiva de um artista?

 

PC - Com certeza. Inclusive, acho que ele se tornou mais necessário do que nunca. Aproveitando o gancho da temática do nosso álbum, as pessoas estão cada vez mais dependendo de mais estímulos para manter sua atenção em algo. Por isso que, além do estímulo auditivo (a música em si), o estímulo visual é imprescindível para que uma pessoa resolva fornecer 1 minuto do seu dia para ouvir uma música nova. Por isso que, inclusive, apostamos em diversos formatos de vídeo para nossos clipes (além do formato tradicional de YouTube, adaptamos para o formato de reels e de TikTok porque sabemos que é praticamente a principal forma de comunicação nos dias atuais).

 

 

 

RR - Falando em tecnologia e a exploração do tema no novo álbum, você acredita que a tecnologia atual só traz benefícios à produção musical ou existem algum ponto negativo a ser destacado?

 

PC - Acredito que todo e qualquer advento tecnológico nunca produz só benefícios e nunca produz só malefícios. Por um lado, a utilização de IAs na produção musical tornou muito mais acessível para que um compositor ou artista independente possa tirar sua ideia do papel sem que seja necessário possuir um amplo conhecimento de produção musical e, também, sem a necessidade de mobilizar pelo menos umas 6 a 7 pessoas diferentes para gravá-la, contando desde os instrumentistas ao produtor e ao engenheiro de som, por exemplo. Por outro, isso infelizmente permite a massificação da música, já que a música pode ser produzida como uma verdadeira linha de montagem, o que dá margem pra ascensão de diversos artistas de IA (que nem sequer existem) cuja única função é gerar dinheiro para apenas alguém que soube montar um prompt razoável. Há engenheiros de prompt que, cada um, possuem diversas bandas de IA nas redes de streaming gerando renda sem nenhum esforço praticamente.

 

 

RR - Nos conte o motivo do batismo do disco como o título “404””.

 

PC - A escolha foi bastante natural, já que o álbum está repleto de referências tecnológicas e digitais. A título de exemplo das músicas que já foram lançadas, “Reboot Failed” também possui este espírito (fazendo referência a um “reinício”). Já o código “404” foi extraído do código de “página não encontrada”, uma metáfora para o conflito existencial que o protagonista do álbum está passando por estar se perdendo em seu vício.

 

 

RR - As demais faixas de “404” já estão finalizadas? Quando o novo álbum será lançado?

PC - Sim, o álbum inteiro já está completamente pronto. A previsão de lançamento será para o mês de outubro… só estamos aguardando algumas definições!

 

 

RR - O Rygel já tem cinco álbuns lançados. Desde o power-prog do primeiro até “Realities... Life as It Is”, a banda foi moldando seu estilo, acrescentando elementos mais pesados de trad metal e thrash. Como você definiria o som que o Rygel faz hoje em dia?

PC - Essa é a pergunta que todos nos fazem e nem nós da banda conseguimos responder (risos). O Rygel nunca se prendeu a um estilo específico. Nunca compomos pensando em ser uma banda de thrash metal, uma banda de metalcore, uma banda de heavy metal, uma banda de new metal, etc. Por conta disso, surge a dificuldade de nos rotular, tanto que já presenciamos mais de uma vez que veículos de imprensa (ao ouvir um mesmo álbum nosso) nos caracterizaram de estilos diferentes de metal. Por isso, gostamos de dizer que somos simplesmente uma banda de “metal moderno”. Pegamos as nossas influências do metal tradicional e tentamos trazê-las para a nossa realidade atual, baseadas em bandas atuais que também gostamos muito, como Architects e Bleed From Within, por exemplo. O fato de nós 4 da banda termos influências dentro do metal bem distintas favorece muito isso. Se fôssemos 4 caras com as exatas mesmas influências, possivelmente seríamos apenas uma banda de thrash, de heavy ou de metalcore. No entanto, justamente por sermos diferentes que, ao juntar todas essas influências distintas, criamos algo muito único.

 

 

RR - Hoje praticamente não existe diferença de produção entre bandas brasileiras e estrangeiras. Como você sente a aceitação do Rygel fora do Brasil?

 

PC - A aceitação do nosso som fora do território brasileiro também é muito boa, mesmo que ainda não tenhamos feito shows fora do País. Nesse sentido, as redes de streaming têm colaborado muito pra disseminação internacional da música, permitindo que alcancemos públicos que jamais esperaríamos. Mantemos contato frequente com fãs nossos da Europa, EUA e outros países latino-americanos, inclusive enviando a eles nossos produtos de merchandising como CDs e camisetas. Já fica o jabá pra todo mundo que tá lendo a entrevista pra dizer que temos loja online e podem comprar nossos produtos facilmente na internet (risos).

 

 


 

RR - Como está o cenário de shows da banda pelo Brasil?

PC - Nos últimos tempos temos feito bons shows por aqui, mas a temporada de shows começará forte principalmente após o lançamento do “404”, e aí passaremos a promover nos shows o lançamento dele. Divulgaremos o quanto antes nas nossas redes sociais pra todo mundo ficar atento se estivermos fazendo shows nas suas respectivas cidades!

 

 

RR - Nem vou entrar no conceito das dificuldades de uma banda na cena brasileira do metal independente, mas quais as ações (em termos de produtores e/ou empresariamento) que o Rygel tem praticado para continuar firme na luta por sua arte e elevar ainda mais seu nome na cena?

PC - No cenário independente mais do que nunca é necessário que tenhamos as pessoas certas nos lugares certos. Isso começa pelos membros da banda, porque há muitas pessoas que são excelentes e virtuosos músicos, mas como um membro de banda não são boas. Ironicamente, estar gravando em estúdio ou num palco fazendo shows são apenas cerca de uns 30% a 40% do que uma banda independente faz. No restante do tempo, estamos discutindo planejamento de marketing, estamos discutindo estratégias de vendas, estamos discutindo sobre parcerias, estamos discutindo sobre prensagem dos CDs e produção dos nossos itens de merchandising como camisetas e outros acessórios, estamos produzindo clipes de forma independente, estamos discutindo gestão de redes sociais… então, pra uma banda independente, uma qualidade que é mais valiosa ainda do que ser um exímio instrumentista é ser uma pessoa que sabe trabalhar em grupo e ser uma pessoa proativa, porque tudo isso exige muito diálogo e conversa pra que as coisas funcionem e também que a própria pessoa em questão tenha a disposição pra espontaneamente assumir responsabilidades dentro da própria banda, visando o bem comum da banda. Por isso que todas as pessoas que estão ou já passaram pelo Rygel são pessoas que são, em primeiro lugar, pessoas de fácil convívio e com uma consciência coletiva que, também, são ótimos músicos.

 

 

RR - Vocês são de Santos/SP. Tivemos nomes históricos do rock/metal brasileiro nessa cidade como Vulcano, Psychic Possessor e Garage Fuzz. Como está Santos hoje em termos de fomento de bandas?

PC - Em termos de bandas, Santos sempre esteve muito bem servida de ótimas bandas. Em termos musicais, a cidade sempre foi muito rica. Atualmente a cena pesada da cidade conta com bandas incríveis como Usina, Distant Shores e com um destaque para o Bayside Kings, que recentemente levou o nome da cidade ao Rock in Rio. Se dependêssemos apenas da qualidade musical das bandas de Santos, estaríamos excelentes, mas pra mim o gargalo da cidade tem se tornado as possibilidades de se tocar ao vivo. Comparado a antigamente, temos poucas casas de show que são acessíveis, abertas para esse estilo de música e que possuem uma boa estrutura. Eu sinto que isso faz com que a própria cena musical tenha menos estímulos para se desenvolver e aproveitar o potencial de todas essas bandas incríveis que temos por aqui.

 

 

RR - Fique à vontade para deixar quaisquer outras mensagens sobre o “404” e os demais movimentos atuais futuros da banda.

PC - Sobre o “404”, além de esperarmos obviamente que as pessoas curtam o álbum (risos), torcemos pra que o enredo dele incite uma verdadeira reflexão para todos aqueles que escutem. Realmente, estamos vivendo tempos em que as pessoas se sentem cada vez mais dependentes das redes sociais, e isso não se trata apenas das pessoas necessitarem checar seus feeds a cada 5 minutos. As pessoas estão começando a acreditar que apenas aquilo que elas exibem nas redes sociais possui valor, estão criando personalidades fictícias nas redes sociais para ostentarem tudo aquilo que elas não são. Ao invés de criarem algo de concreto e significativo em suas vidas fora das telas, elas investem tudo em um status de fachada no mundo digital. Esperamos que o quanto antes, as pessoas deixem de dar tanto peso a algo que, inicialmente, deveria ser apenas uma distração e não tornar essa distração um pedaço relevante de sua vida.

Quanto à banda, estamos com a previsão de mais um lançamento de single do novo álbum. Este será bem especial, porque vai marcar definitivamente a entrada do Vandré como guitarrista da banda. E, além disso, é a música mais violenta do novo álbum, então estamos com bastante expectativa. É uma música rápida com influências de hardcore e thrash, sem firula, direto e reto. Com o lançamento do “404”, nosso plano é uma extensa agenda de shows pelo Brasil pra promovê-lo. Esperamos ver todos vocês nos shows!

 

 

 

As expectativas pela chegada de “404” são mais positivas possíveis. A julgar pelos primeiros singles e por essa saudável mania que o Rygel tem de mostrar evolução em produção e composição a cada novo álbum, teremos mais um grande disco de nosso metal tupiniquim. Que as portas e ouvidos daqui e de lá de fora se arreganhem para o conceitual e com certeza poderoso “404”.

 

 

 

Contatos

 

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