domingo, 11 de novembro de 2018

Order of Destruction - EP reverencia a escola clássica do metal



Old School. Um termo muito utilizado na literatura rock quando se refere a uma música feita nos dia de hoje que traz referências à época do nascimento do estilo a qual ela se enquadra. Para quem não acompanha e não gosta de heavy metal, o estilo sempre será tido como novo. Música de "hoje em dia". Mas lá se vão 48 anos desde que o Black Sabbath lançou seu primeiro disco, pedra fundamental do estilo. Assim, todo e qualquer subestilo de metal que foi se desenvolvendo posteriormente carrega consigo a experiência de décadas. Assim, quando falamos de "old school" do metal, nos referimos às características originais e transformadas do estilo, essencialmente nos anos 1980 (do metal tradicional ao death). Nos últimos anos tivemos um revival de bandas forjando sua música nestes padrões de heavy metal. E hoje vamos apresentar mais uma delas, que começa dar seus primeiros passos, apostando nesses padrões. É  a Order of Destruction, de São José do Rio Preto/SP, que começou suas atividades no final de 2013. Formada por jovens músicos, que se alimentaram das influências mais clássicas do estilo, João Octavio Gallo (vocal/guitarra base), Guilherme Henrique  (guitarra solo), Airam (bateria) e Lavinas (baixo).

Em 2017 lançaram, de forma independente, seu primeiro CD/EP, "DISOBEY", com 6 faixas. Já haviam lançado um videoclipe para a música "By Myself", do disco. E recentemente, divulgaram o vídeo para "Let it Rise", música inédito da banda.



A música do Order é incrementada com elementos do power metal (leia-se Running Wild, Grave Digger), com doses da escola clássica do thrash e muito metal tradicional. Se enquadraria de boa no conceito heavy/thrash.

O CD abre com "Ruthless Killer", cujo lick inicial de guita com uma aura oriental, dá espaço a uma canção que mistura velocidade. A cadência a lá Slayer tem o peso denso do espírito oitentista. "Brainwash" tem uma cadência quebrada, que em alguns momentos lembra o Megadeth atual, principalmente pelo duo guitarra/bateria. Riffs pesados passeiam sobre uma base de backings vocals.
"DISOBEY", a faixa título, inicia-se com cara de metal clássico, com suas variâncias dando espaço a incursões latentes do baixo. Doses de melodias oitentistas principalmente nas dobras e no solo. O riff dobrado e cavalgado de "Land of Chaos" faz a faixa soar clássica e moderna ao mesmo tempo (como referência poderíamos citar algum trabalho recente do Judas Priest).

"Cancer" é aberta e direcionada pelo baixo e é tem boa dose de velocidade acrescida posteriormente, lembrando bateria de thrash em alguns momentos. A cadência é marcada pelo uso de pedal duplo. E "By Myself" fecha o EP, se candidatando, em minha visão, ao "hit" da banda (por enquanto). Vem naquela levada "Kill'em All" do Metallica, fazendo os elementos melodia e velocidade se entrosarem perfeitamente.

Uma galera, de faixa etária tão baixa, concebendo um disco seguro, forte, transbordando inspiração e dedicação ao estilo, é um fato que deixa nós, velhos rockeiros/headbangers, muito felizes, pela perspectivas da continuidade da construção autoral dentro do heavy metal. É um resgate do passado, concebendo temas moldados ao jeito peculiar que cada músico carrega na arte de compor. O Order tem muito ainda a evoluir, e, se precocemente nos apresenta um trabalho de ótimo gabarito, imagino o que podem apresentar nos próximos anos.

Com a palavra, os rapazes do Order

Ready to Rock - A música da banda remonta à bandas clássicas do metal (tradicional e thrash). Como músicos tão jovens foram beber em fontes tão distantes?
João Gallo - Bom, o metal é uma fonte inesgotável de coisa boa, porém, todos sabem reconhecer as raízes dele, e foi assim conosco. Amamos o old school e também sabemos apreciar a fatia jovem do metal, e isso só gera coisa boa. O clássico jamais será esquecido, são nossas raízes e elas serão respeitadas por todo headbanger, por mais novo que ele seja. Em nossas veias corre metal oitentista, e claro, a parte jovem do metal.

RR - Mesmo assim tem-se algumas referências a grupos mais contemporâneas, concorda?
João Gallo  - Concordamos, e como dito anteriormente, possuímos esse elo entre o old e o moderno. Não queremos soar como "mais do mesmo", por isso trazemos diversos elementos mais modernos e gostamos do resultado disso.

RR - Como você sente a cena nacional atual para o heavy/thrash metal tradicional?
João Lavinas -
Cara, vou te falar que essa é uma pergunta que chega a doer meu coração. A verdade o que eu sinto é que a cena, não só para o heavy/thrash metal, mas para todo o metal,  está na UTI com quadro nada estável e com muitas complicações. O modelo de o que é banda e o que é a cena nacional mudou muito, antes, não havia internet então sair para ver uma banda, significava sair para se encontrar com os amigos e paqueras. Hoje, com a internet, as pessoas não vão mais ver os shows ao vivo e isso tem muita culpa de todas as partes do processo. As casas para o metal perderam público porque não se desenvolveram e evoluíram como as dos outros estilos ou focadas em cover, as casas ainda são lugares ditos underground, mas que não tem a mínima condição de concorrer com a baladinha top da esquina. As bandas, por muitas e muitas entrarem cedo e “queimarem a largada” acabaram queimando o filme das bandas autorais, ou seja, bandas autorais viraram sinônimos de bandas amadoras. Ninguém mais vai em um show de uma banda desconhecida que sequer tem o nome de outra conhecida atrelado a ela. O público, voltando na questão da internet, é um facilitador, revolucionou o mundo e, não sabemos mais como tirar essa galera “do seu apartamentinho”, o louvor a bandas do passado e a resistência a bandas novas fazem com que os covers lotem as casas de shows, enquanto as bandas autorais não consigam nem chegar perto de cobrir os custos variáveis daquele show. Ou seja, a cena nacional tem muito potencial, muito espaço a ser preenchido mas uma missão não vista até então, atrair novamente o público para os shows.

RR - Por se tratar de um estilo bem agressivo, se comparado a outros do metal (tradicional/hard rock), imagino ser muito mais difícil a rotina de tocar ao vivo, certo?
João Gallo -  Há um certo desgaste, as músicas de fato são bem difíceis de serem  executadas, e por este motivo temos uma rotina de ensaio religiosa desde os primórdios da banda. O grande lance é que por vezes ensaiamos como iremos nos portar durante os shows, e isso ajuda bastante. É claro que a adrenalina é outra, mas lidamos bem com isso. Há também o lance de ter menos locais para tocar, por não ser um gênero tão "popular", isso dificulta bastante, mas as bandas se ajudam muito e por todo Brasil ainda existem pessoas que erguem a bandeira do metal conosco.



RR -  O CD "DISOBEY" tem um resultado de produção surpreendente. Onde foi gravado e produzido?
Airam - DISOBEY foi produzido e gravado exclusivamente no Zarref Studios, aqui em São José do Rio Preto com o produtor Henrique Ferraz. Henrique também produziu excelentes bandas daqui, como OUDN e Deathray, por exemplo (e ambas também são muito parceiras nossas). Devemos muito da nossa musicalidade a esse cara.

RR - Tem uma boa variação de músicas como as rápidas "Ruthless Killer" e "By Myself" e as cadenciadas e com boa dose de melodia como "Brainswash" e  "Land of Chaos". Como funciona o processo de composição na banda?
Airam - Entre os integrantes temos diversas influências individuais, e trazemos tudo isso na hora de compor. Buscamos tanto a velocidade das bandas old school, quanto ao peso e os breaks das bandas mais modernas. Cada música nasce de uma maneira, tem sua história, e todos participamos do processo de desenvolvimento delas, colocando nossas ideias tanto como indivíduos, quanto como banda. E ao final, lapidamos tudo com uma boa produção e gravação.

RR - Vocês tinham produzido um vídeo para "By Myself". Agora estão lançando um novo clipe, "Let it Rise". Planos para um novo CD em breve?
João Lavinas - Isso. Em 2016 lançamos nosso primeiro single, “By Myself”; em 2017, lançamos junto com o primeiro EP “DISOBEY”, o clipe da música “Brainwash”. Agora, em 2018, lançamos o single “Let it Rise”, também no formato de clipe. Assim, como “By Myself” foi o pontapé para o EP; “Let it Rise“ é o pontapé para nosso primeiro álbum full length.  Respondendo à pergunta, esperamos até o final de 2019 já ter lançado nosso novo CD.



RR -  Como estão atualmente as atividades da União Underground (grupo que reúne bandas de heavy metal de S.J.Rio Preto)?
João Gallo - A União Underground já não existe mais, houveram alguns desgastes durante os processos, e ela acabou se dissolvendo.  Fizemos muitas coisas legais por lá, mas enfim, não houve sequência. O que existe hoje em dia é um protótipo de projeto chamado Rota Underground 017, que tem a ideia de tornar Rio Preto uma referência para bandas de fora virem tocar aqui, mas o cenário de público não tem colaborado para que isso tenha sucesso. Precisamos repensar os evento e o metal, estamos fazendo isso, mas não sei onde conseguiremos chegar.

RR -Vejo muita banda lançando trabalho autoral em Rio Preto, até dentro da cena metal. Como você vê a cena do rock autoral da cidade?
Airam - Cremos que a cena do rock e metal da cidade de Rio Preto tem grande potencial. Hoje ela não está tão ativa quanto poderia, mas tem muita capacidade e está em ascensão! Ótimas bandas, ótimos produtores, ótimos gravadores nos cercam aqui e lutamos para valorizar nossa cidade e nossa região todos os dias, criando parcerias com novas bandas, bandas de outras cidades, outras regiões, movimentando o local e buscando representar bem lá fora.

RR - Quais os próximos passos da carreira da banda e até onde você imagina que o Order pode chegar em termo de sucesso no undergroud?
João Lavinas - Os próximos passos pelo menos até 2019 estão traçados. Finalizamos o ano de 2018 com o show com o Hangar em Rio Preto. Em 2019 retornamos no carnaval com nossa tour para o Paraná, faremos 7/8 shows lá em 9 dias. Após isso, retomaremos as gravações e finalizaremos o nosso álbum full length.  Isso é o que está traçado a curto prazo, no longo prazo nossas intenções são as melhores possíveis. Gostaríamos muito de abranger a América do Sul ainda nos próximos anos. E claro, não esquecer do Norte e Nordeste onde tem muita gente que gosta do nosso som.       Vemos o Order com muito potencial, por isso investimos muito tempo, dedicação e dinheiro na ideia da banda. Portanto não faria sentido não nos vermos, no futuro, no patamar das grandes bandas nacionais
.
RR - Fique à vontade para deixar qualquer outra informação sobre a banda.
João Gallo - Bom, estamos trabalhando em várias novidades para ano que vem, músicas, clipes, tours... Será um ano bem agitado! Também é legal lembrar que nosso EP “Disobey” e o single “Let it Rise” estão disponíveis em todas as mídias digitais, no caso do EP, também em mídia física. Enfim, se atentem nas nossas redes sociais, várias novidades serão anunciadas com brevidade!


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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Cabrero retoma atividades e lança o brutal álbum "Prelúdio ao Ódio Infundado"



Retornar as atividades de uma banda após um hiato de anos é uma prática não tão rara no meio musical, seja no mainstreen ou no underground. A volta, nessas circunstâncias, se dá quando os músicos se encontram em outro patamar técnico, social e profissional. Têm outras visões acerca de produção, composição e aspirações de carreira. Isso gera muita expectativa por conta dos apreciadores de rock, em descobrir como soa hoje uma banda que ouvia há anos. É nesse cenário que a resenha de hoje vai se enquadrar. Formada em 2003, em São José do Rio Preto/SP, o Cabrero encerrou suas atividades em 2006. Após 9 anos, a banda reuniu quase todos seus membros originais e resolveu gravar um novo disco de inéditas. Assim nasceu "Prelúdio ao Ódio Infundado". Murilo Berbel (vocal), Gustavo Coutinho  (baixo/vocal), Jovani Fera (bateria), os membros originais, se juntaram a Rodrigo Pantoja  (guitarra) para gravar o álbum que marca o retorno da banda. "Prelúdio" foi gravado e produzido no estúdio Lamparina, do produtor Guto Gonzales, e teve a masterização a cargo de Chris Common (Texas, USA).

O que nos apresenta no novo disco é o Cabrero investindo na fórmula que praticava antes, mas desta vez em um patamar visceral muito mais brutal: violência musical, feita com muito bom gosto, segurança e coesão. Se situa num thrash metal, com muita referência ao estilo clássico, ainda que flerte com a aura de bandas das últimas décadas. Bateria veloz, baixo gordo e na cara, a guitarra com paletadas thrash se intercalando com licks melódicos e vocais que apresentam tons altos (na ardência desesperadora cujo timbre lembra o Pompeu, do Korzus), alguns momento limpos e outros com drivers que se entregam ao gutural. Elementos que fazem do disco uma deliciosa pedrada sonora, que deixará em delírio qualquer ouvido headbanger adepto a tal pegada.


Vamos a uma síntese de como se mostram as faixas. "Enola" começa moendo tudo a 300km/h. Thrashão martelado com bateria alucinada e aquele baixo com o timbre gordo. Finaliza de forma quebrada e cadenciada. "Commodities Mortes" é mais cadenciada, com alguns toques de metal clássico numa boa variação de riffs. Um curto solo com doses generosas de melodia tempera a faixa. É uma onde os guturais se apresentam a todo instante.

"Combustão" se desenvolve com uma rifferama que chega a lembrar Slayer em alguns momentos. E outra que se desenvolve mais na velocidade padrão do thrash, sem ser tão acelerada. Entre passagens mais calmas florescem vocais mais limpos. "Anjo do Mal" se apresenta como um início bem Black Sabbath (e a demais escola doom que se seguiu a partir dele). Depois de alguns momentos, licks com melodia fazem a ponte para o desfecho da faixa (à base de uma guita isolada).

"Cabrero", a faixa que batiza a banda é outra porrada certeira. Veloz, a faixa parece funcionar como uma espécie de hit violento do disco. Curiosamente, a faixa título, "Prelúdio ao Ódio Infundado", é o único momento de calmaria do álbum, sendo uma instrumental à base de dedilhados.


A agressão continua com "Intolerável Intolerância", até pelo timbre da bateria e pela escalada do baixo, tem um quê da escola mais nova do thrash, como Pantera por exemplo. Mais um solo dá um frescor melódico à pancadaria. "Sofrendo Honestamente" tem uma certa aura de Sepultura (fase "Chaos AD"), pelas viradas de bateria. Aqui o jogo de vozes intercala bem vocais limpos e altos. E o álbum fecha com "Da Rendição a Redenção". Após a intro, com uma cara de Bay Area, a faixa desemboca na cadência tradicional do Thrash (leia-se Exodus, Testament).

A volta da banda foi marcada com um álbum forte que mostra os caras numa garra impressionante. Vamos esperar pra ver o Cabrero estender seu nome na cena independente Brasil afora, pelo menos pela divulgação do álbum. Afinal como dizem os versos da música "Cabrero", "Cabrero, ontem hoje e sempre, a atitude não muda".

Uma conversa com o vocalista Murilo Berbel

Ready to Rock - A primeira pergunta é meio óbvia. Pela história, a banda encerrou as atividades em 2006. No profile da banda consta como um reinício em 2015. O que motivou esta volta, 9 anos depois?
Murilo Berbel: Definitivamente o fator principal é o amor pela música. Nós quatro amamos isso, estamos conectados com ela praticamente o dia todo, temos muitos amigos nesse meio, etc... Além disso, também somos grandes amigos, respeitamos uns aos outros e sempre compartilhamos ideias que temos, independente da banda. Quando o Gustavo Coutinho (baixo) e o Jovani Fera (bateria) decidiram voltar a fazer música com a Cabrero, me chamaram para o vocal, pois fui o primeiro vocalista da banda, mas saí para morar fora do país e então se firmando com Gustavo no vocal. Decidimos então chamar o Rodrigo Pantoja para guitarra, pois apesar de ele não ter feito parte anteriormente, é um guitarrista sensacional e tem todo perfil que buscávamos. Aí decidimos gravar esse disco para honrar a história da Cabrero e também materializar as ideias que tínhamos.

RR - Nos últimos 3 anos como foi a rotina das atividades da banda?
MB: A primeira coisa que posso te dizer é que não foi uma rotina tão convencional para uma banda de metal. Isso pois apenas o Fera e o Rodrigo moram na mesma cidade, que é São José do Rio Preto. O Gustavo mora em Campinas e eu em São Paulo. Acrescente a isso o fato de não sermos mais moleques, termos vida profissional de bastante responsabilidade, família, tudo que pesa contra quando se quer ter uma banda. Por isso o disco demorou um pouco mais de tempo para ficar pronto. Mas não nos prendemos muito com o tempo de lançamento, pois não temos rabo preso com ninguém, nem gravadora, nem empresário, nada. Nos sentimos livres para fazer tudo no nosso tempo e só demos cada etapa como concluída quando realmente os quatro estavam totalmente satisfeitos.

RR- O disco está agradavelmente violento. Como foi o processo de composição dele?
MB: Obrigado pelo elogio! Essa é uma pergunta fundamental, pois o processo de composição foi, como já falei um pouco na resposta da pergunta acima, fora do convencional. Noventa por cento desse disco foi composto online. Criamos um grupo no aplicativo Telegram, que percebemos ser um bom software para compartilhamento de arquivos, e a partir daí começamos a compor todo material. A maioria das ideias vinham das cordas. O Rodrigo e o Gustavo gravavam em suas casas os riffs que ia compondo e apresentavam para todos por meio do aplicativo. O Fera e o Rodrigo se reuniam para ensaiar e  concretizar as ideias, gravando cada ensaio e enviando ao grupo. A partir disso íamos todos dando opinião, estruturando e evoluindo cada música. Desde o início das composições até a finalização da gravação, fizemos menos de dez ensaios presenciais com todos os integrantes, o que não é muito comum para um estilo de música tão orgânico. Mas acreditamos que funcionou bem, nossa sinergia é bem forte.

RR - As faixas mostram boa variação de cadências (como as velozes "Cabrero", "Enola" e " Sofrendo Honestamente" e as cadenciadas "Commodities Mortes" e "Combustão"), além da inserção de algumas passagens melódicas de guitarra. Como suas influências tem referências na concepção das músicas?
MB: Somos influenciados por muita coisa. Apesar de nossa grande amizade, somos quatro caras totalmente diferentes. Temos várias influências em comum, mas outras tantas distintas. Gostamos de variadas vertentes do metal e muita coisa fora dele. E isso é ótimo, pois com certeza ajuda a dar personalidade na sua música.

RR - As letras versam sobre caos social, críticas à religião e até mesmo comportamento humano. Como você vê o casamento da parte lírica com a instrumental?
MB: Quando alguém me fala que as letras são muito pesadas e violentas, costumo dizer que o ser humano faz, nós só relatamos o fato! Brincadeira à parte, a composição das letras foi toda feita por mim, mas sempre compartilhando com todos e ouvindo opiniões sobre os temas abordados. Basicamente escolhia temas profundos  e estudava muito sobre ele. Li artigos, assisti documentários em diversas línguas, tudo para entrar a fundo e conseguir extrair e transmitir o que queríamos. Para citar alguns exemplos disso, letras como a da "Combustão" foi inspirada na vida de Mohamed Bouazizi e o início Primavera Árabe. A "Intolerável Intolerância" foi inspirada num dos trabalhos do poeta e filósofo italiano Giacomo Leopardi. Já a "Anjo do Mal" foi inspirada na história de Elizabeth Thomas, uma jovem americana que sofreu de transtorno de apego. Foram temas que fizeram me envolver bastante e até mesmo despertar vários sentimentos estranhos dentro das nossas cabeças. Tudo isso no objetivo de deixar as letras no mesmo nível de excelência do qual tratamos todo instrumental.

RR - Como avalia o trabalho de produção do Guto Gonzales para o álbum?
MB: Extremamente profissional. Guto é amigo de longa data, um cara que além de ter capacidade técnica ímpar, tem a cabeça aberta e conhece as características de cada um de nós. O trabalho dele tem uma pegada bem orgânica, e desde o começo sabíamos que ele seria ideal para esse trabalho. Além disso, o Lamparina é mais do que um excelente estúdio, é um local extremamente agradável, receptivo, que transborda cultura de diversas formas. Ficamos plenamente satisfeitos com o resultado final.

RR - Qual o impacto da masterização feita pelo norte americano Chris Common teve sobre o resultado final do disco?
MB: Gigante. Chris já trabalhou com bandas grandes como Mastodon, Pelican, entre outras várias. Tem larga experiência e profissionalismo. Captou facilmente o que queríamos com o disco e foi o tempero final ao trabalho feito pelo Guto.

RR - O que também chama a atenção é a ótima arte da capa. Quem foi o responsável?
MB: O responsável foi o excelente artista Fabio Matta, que além de tudo é também um grande amigo, apaixonado por metal e ótimo músico. Mais um amigo de longa data que fizemos questão que participasse do projeto, pois sabíamos que conseguiria concretizar o que pensávamos.

RR - Esse retorno representa um modelo padrão de banda, tipo disco e turnê? Pergunto isso pois os membros moram em cidades diferentes. Há planos para shows da banda?
MB: Infelizmente não há planos para shows. Além desse fator da distância, também temos muitas responsabilidades profissionais e familiares, o que impede de seguirmos em frente. A banda se reuniu exclusivamente para o lançamento do disco, uma coisa meio Nailbomb. Mas não vemos isso como algo negativo, pois o disco perdura e a arte é eterna.

RR - Uma questão que sempre faço às bandas entrevistadas. Nem é necessário explanar sobre as dificuldades de uma banda autoral no Brasil. Como o Cabrero lida com essa situação?
MB: Infelizmente o Brasil é um país de terceiro mundo e acho que isso basta para sabermos que temos dificuldades em praticamente todos os setores da vida. Somos da época de enviar release de banda via correio, com outras bandas gravamos demo tape em cassete, tocamos em lugares longínquos sem ganhar um centavo, ou seja, já vivemos a maioria os tipos de perrengue que uma banda autoral vive. Hoje em dia a tecnologia encurtou muita coisa, vide o nosso processo de composição e o acesso que todos temos a novas bandas. Mas no fim de tudo ainda vemos que o principal é fazer por amor e diversão. O que é sincero e honesto se espalha naturalmente, não importa quais as dificuldades. Acreditamos que hoje a cena do metal brasileiro está muito viva e ativa e temos orgulho de ter dado nossa contribuição para isso.

RR - Quando está previsto o lançamento do CD físico. Li também que pretendem prensar em LPs?
MB: Ainda não temos uma data. Como somos 100% independentes e não vivemos da banda, precisamos levantar verba para isso acontecer. Mas com certeza está nos planos o lançamento de CD físico e também LP. O fã de metal gosta muito do material físico, do lance de colecionar mesmo, e não somos diferente. Pessoal pode ficar atento nas nossas redes sociais que lá informaremos.

RR - Fique à vontade para deixar qualquer outra informação sobre a banda e o disco.
MB: Primeiro agradecer a você pela oportunidade da entrevista, agradecer a todos que apoiaram e participaram conosco desse projeto e acima de tudo a todos que apoiam, incentivam, compartilham e executam a música pesada ao redor do mundo. Falar também para o pessoal escutar nosso disco nas principais plataformas de streaming, compartilhar com os amigos e ficar ligado nas nossas redes sociais, que relacionamos aí abaixo. E por fim, dizer que acreditamos fielmente que o que faz a música não é todo business que a envolve, e sim a vontade e o amor por ela!

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domingo, 2 de setembro de 2018

Motordrunk mostra excepcional produção sonora em seu primeiro álbum



A produção de novas e excelentes bandas da cena rock/metal do Brasil parece ter migrado da escala manufaturada para a industrial. Isso porque a quantidade e qualidade de grupos que surgem anualmente por estas terras é absurda. Eu diria que, se no quesito mercado de shows (quantidade de eventos, padrões de equipamentos, exposição em mídia, retorno financeiro a músicos e produtores) ainda estamos bem abaixo do que se faz lá fora, em termos de criação temos uma das melhores cenas do planeta. E a banda a qual vamos expor nessa resenha é mais uma que corrobora esta condição. Motordrunk, natural de São José do Rio Preto/SP, debuta em seu primeiro álbum, autointitulado "Motordrunk". Criado em 2009, o grupo começou sua trajetória executando covers de grandes artistas do hard rock e heavy metal, em shows por sua região. Não por acaso, as características de sua música autoral se posiciona nesse mesmo patamar - heavy metal moderno e classudo, com algumas pitadas de hard rock (pesado). Ao mesmo tempo que traz referências a nomes antigos como Ozzy (fase Zack Wylde) remete à galera da geração atual, como Black Country Communion, Dream Evil ou Monster Truck.  De uma forma geral, a presença de vocais marcantes, teclado, bateria precisa e a força criativa da guitarra garantem à banda uma aura bem própria, distanciando-se de qualquer possibilidade de soar idêntica a qualquer banda já estabelecida.

A formação atual é composta por Sérgio "Naza" Guimarães (vocais), Raphael Dias (Guitarra), Jovani "Fera" (bateria), Maurício Lopes (teclados,backings) e Renato Montanha (baixista do conterrâneo Maestrick). As captações e pré-produção do foram realizadas em sua cidade natal, e a mixagem e masterização ficou a cargo do renomado produtor Adair Daufembach  (Project 46, Hangar, Maestrick).  A arte da capa foi criada pelo designer Wildner Lima, de Rio Claro/SP.

É bem comum  a reflexão, dentre os apreciadores do estilo, da presença e relevância do teclado em formações heavy metal. Herança do hard setentista, nos modelos máximos de Purple e Uriah Heep, os teclados foram peça fundamental para o estouro das bandas de power metal melódico dos anos 1990/2000. Mas, mesmo no metal clássico, encontramos diversos exemplos de grupos que incluíram tal recurso, como Black Sabbath, Ozzy solo, Savatage, Queensryche. Aqui no Motordrunk, o teclado se insere na música como um integrante representativo tanto quanto os demais instrumentos, sendo que em diversos momentos do disco percebe-se a presença de tal instrumento no desenvolvimento da ideia da música.



Motordrunk, o disco

A sonoridade de todos os elementos está por demais equilibrada. Todos os instrumentos estão bem nítidos e conseguem transportar ao ouvinte cada uma de suas intenções criativas. O que salta aos olhos (e ouvidos) é a força da guitarra, com riffs marcantes e uma impressionante gama na construção dos solos. O álbum começa com o que se convencionaria chamar de hit, a faixa título "Motordrunk" com seus riffs grudentos e um grande refrão.

"New Kind of Freak" (os refrães lembram um Kiss e conta com um solo de guitarra muito interessante) e "Drunk and Dangerous" (belo jogo de vozes) têm um relances de hard em suas pontes e contam uma pegada visceral do baixo.  Em "Scars", temos a faixa mais sabbathica da banda (se integrasse o "13" ninguém se espantaria). "Break Away" tem aquele lado hard pesado com uma pegada bem massa nos refrães e dá-lhe rifferama pesada.

Riffs calvagados e uma bateria direta emolduram "Black Machinery", uma das mais agressivas do disco. A bateria rápida e versátil marca os andamentos de "Regression", que tem certa alternância de cadência, bem pesada e com um solo certeiro de guitarra.

"Drink Away the Storm" abre com um clima southern com direito a violões e slide, seguido por um vocal introspectivo. Aos poucos a faixa vai se encorpando com licks. Lá pelos 2 minutos o peso visceral retorna, com riffs na cara, mais um excelente solo de guitarra e vocais dramáticos. Pela atuação das vozes e melodia, "Underdog" lembra um pouco a fase atual do Anthrax. Por fim, "Quicksand", uma clássica balada pesada introduzida pelo teclado, que intervem com destaque em toda a faixa, mesmo nas partes mais pesadas.

O que se percebe é que a grande qualidade do álbum pode ser fruto, dentre outras coisas, da experiência que seus integrantes , tendo participado há décadas, de várias bandas da cena underground de Rio Preto, como Nothing Face, Cabrero e Last Wizzard. Mas, sem olhar para traz, o Motordrunk se muniu de elementos clássicos para gerar uma sonoridade com o frescor da modernidade, dando parceria entre o tradicional e o novo. Um belo álbum de estreia, direto, agradável, daqueles que dá vontade de ouvir diversas vezes. É apenas um começo certeiro, mas, se a banda mantiver esse esmero nos cuidados com a produção e tão impactante poder de composição, o Brasil ainda ouvir falar muito de Motordrunk.

O álbum já está disponível nas plataformas musicais e em breve terá sua edição física lançada


Uma conversa com Maurício Lopes

Ready to Rock - Após quase 10 anos de carreira, o Motordrunk finalmente lança seu álbum de estreia. Porque demorou tanto?
Maurício Lopes - A banda foi formada inicialmente com o intuito de executar covers das preferências de seus integrantes, executando-os pelos pubs da região. Foi apenas em 2014 que decidimos partir para as autorais, já que era vontade de todos. Tínhamos que conciliar os horários de encontro para as composições com os eventuais empregos de cada membro e o mesmo aconteceu com as gravações.

RR - Como funciona o esquema de composição no grupo?
ML - Para esse debut foi feito da seguinte forma:  Primeiro apresenta-se alguns riffs e passagens de composições. Em seguida é efetuada a estrutura e os arranjos. Então é definido o tema da música, onde é feita a letra. Já estamos preparando o material do próximo álbum, onde poderá haver alterações nesse processo. Já temos composições criadas a partir da bateria.

RR - Montanha, do Maestrick, participou da gravação do disco. Ele será integrante fixo ou a  banda vai buscar outro baixista?
ML - Não estamos em busca de um baixista fixo no momento. Estaremos trabalhando com o Montanha nas divulgações do debut Motordrunk. Depois veremos o que o futuro nos reserva... (risos)

RR - É excepcional a qualidade da produção do disco. Como chegaram a este patamar?
ML - Primeiramente, muito obrigado pelo elogio. Quando decidimos lançar o álbum Motordrunk, queríamos que ele tivesse qualidade de gravação suficientemente boa para estar ao lado dos álbuns de nossos ídolos, então deixamos a coisa fluir, mas de forma minuciosa. Então juntamos forças com o Adair, que nos foi muito bem indicado.

RR - A produção do Adair (como ocorre normalmente com produtores) teve influência no que diz respeito a alterações de arranjos ou inclusão de elementos nas faixas já compostas?
ML - A influência maior do Adair na produção foi durante a pré produção, onde ele criou as guias, para que captássemos de forma mais orgânica. Ele também acrescentou alguns detalhes na "Break Away" e na estrutura da Black "Machinery". Também foi responsável pela mixagem e masterização do álbum.


RR - Apesar do álbum seguir o padrão heavy, percebe-se bastante variação entre as faixas, algumas com cara de hard, outras com níveis de velocidade distintas, outras com diferentes padrões de riffs. Seria fruto de quais influências de vocês?
ML - Com certeza sim. Apesar de termos muitas influências em comum, os membros da banda tem também influências e gostos musicais distintos um do outro, o que pode sim ter influenciado diretamente nas composições.

RR - Apesar do disco estar bem nivelado em termos de boas composições, gostei bastante das faixas "Motordrunk", "Break Away", "Drink Away the Storm", "Underdog" e "Quicksand". Vocês tem algumas preferências pessoais?
ML - É muito difícil em relação a preferência. Afinal, todas são nossas filhas que queremos entregar ao mundo...(risos). Mas, particularmente, acredito que a “Black Machinery”. Além de ser uma das que mais gosto de executar, ela também mostra duas grandes influências musicais da banda, sem contar a letra que trata-se de um assunto bem atual. A “Quicksand” também se destaca para mim, por ser uma parte muito importante do meu passado. Não posso me esquecer da "Scars", que também é uma das preferidas do “Fera” (Jovani), junto com a "Break Away". Para o “69” (Rafael) destaca-se a “New Kind Of Freak”, que mostra um lado mais Hard Rock, que é sua principal influência. Já o “Naza” (Sérgio) tem um carinho especial pela “Drink away the storm” que foi baseada em um sonho maluco que ele teve.

RR -  Sabemos da dificuldade das bandas autorais em Rio Preto. Mesmo assim vejo muita banda daqui lançado trabalhos nesse segmento. Como você enxerga esse cenário?
ML -  Infelizmente, o cenário Rio-pretense está desfavorecido para o rock, no momento. Mesmo não tendo muito espaço, ainda existe um determinado público fiel ao estilo, então é muito importante que as bandas remanescentes continuem levantando essa bandeira.

RR - Parece que você, Maurício, teve que se afastar temporariamente por questões de saúde. Como está a previsão de volta? Isso deve prejudicar a divulgação do disco?
ML - Meu retorno às atividades normais será em outubro. Isso não será prejudicial, já que a banda pretende lidar com os shows a partir de novembro. Outras atividades estamos conseguindo realizar virtualmente.

RR - Como tem sentido a repercussão do disco até agora?
ML - Muito positiva até agora. Estaremos nas próximas edições de algumas revistas europeias. Também com participação em rádios alemãs.

RR - Quando deve sair a versão em CD do álbum?
ML - Temos previsão para o lançamento no início de outubro.

RR - Existem planos para shows pelo Brasil afora?
ML - Sim. Temos a intenção de levar nosso som para o Brasil e também para o resto do mundo.

RR - Quais os planos futuros da banda?
ML - Temos a intenção de levar nossa música para o mundo todo, então estamos planejando uma “pequena tour” pelas principais cidades do país e, em seguida, para o exterior.
Também iniciaremos os trabalhos para o próximo álbum.

RR - Fique à vontade para deixam qualquer mensagem ou outras informações sobre a banda.
ML - Estamos vendo nossos ídolos morrerem e a maioria das bandas atuais estão partindo para outros estilos. A Motordrunk está aqui para manter acesa essa chama, ajudando a perpetuar o Heavy Metal que tanto nos influenciou.

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terça-feira, 24 de julho de 2018

Maestrick: novo álbum coloca a banda na rota do metal mundial



Quando nos referimos ao assunto rock and roll (e sua família de subestilos), é muito comum se ouvir que "o rock está estagnado", ou "hoje apenas se copiam coisas do passado, nada se cria". Em muitas situações isso se aplica sem dúvida. Mas não se pode afirmar que não seja criado algo de interessante e de supremo valor artístico, advindo de músicos que ainda hoje atuam na criação autoral do rock. O que vamos abordar a seguir é apenas mais uma prova cabal disso.

Quando lançou, em 2011, seu primeiro álbum, "Unpuzzle!", a banda paulista Maestrick não só cravou um dos melhores discos de estreia de uma banda nacional, como surpreendeu crítica e público com uma coleção de ótimas e bem produzidas canções, cuja maior referência se estabelecia no prog-metal. Após o álbum ser também lançado na Europa, EUA e Ásia, a banda fez diversos shows no Brasil e até no Chile. Em 2013, em meio ao processo de composição do que viria a se tornar o sucessor de "Unpuzzle!", a banda soltou o EP "The Trick Side Of Some Songs", com versões de artistas que foram algumas de suas influências confessas, como Queen, Dio, Jethro Tull, Floyd, Beatles e outros.

Em 2018, o grupo anunciou o fechamento de contrato com a gravadora japonesa Marquee/Avalon, uma das grandes gravadora mundiais, para distribuir seu novo álbum "Espresso Della Vita - Solare" no mundo todo. No Brasil o disco saiu em 28 de junho de 2018, após uma noite de lançamento no evento do Central Panelaço, em São Paulo/SP, que contou com a presença de músicos como João Gordo (RDP). O disco, que saiu anteriormente no Japão, recebeu a nota 86/100, da revista japonesa Burrn!.

Não há como destacar a atuação diferenciada de um ou outro músico, visto que todos mostraram evolução técnica ao longo dos últimos anos. O que mais sente-se no entanto é a amadurecida capacidade de composição deles. A bateria é precisa em andamentos e viradas e um baixo técnico sempre na cara, junto a levadas de muito bom gosto de teclados e vocais carregados com a dose certa de dramaticidade.

A banda junto a João Gordo na audição de "Solare" em São Paulo

O que o Maestrick apresenta então em "Solare"? Se tivesse uma expressão que pudesse resumir o trabalho esta seria "diversidade criativa". Mas é muito pouco para definir o que Fábio Caldeira (vocal/teclado), Heitor Matos (bateria) e Renato Montanha (baixo) conseguiram registrar no álbum. Isto porque estamos diante de uma dos mais criativos, inteligentes, interessantes e cativantes discos que uma banda de heavy metal já lançou no Brasil. E vou mais além, não é fácil lembrar de uma banda em todo o globo que tenha feito recentemente um trabalho com tão intensa densidade artística.

O trio que capitaneia a banda, se juntou ao renomado produtor brasileiro Adair Daufembach (Project46, John Wayne, Hangar), que foi o responsável por registrar também as guitarras do disco, que se mostram por demais surpreendentes. Recentemente o tecladista Neemias Teixeira ingressou na banda. Se o primeiro álbum já trazia muita variação ainda que bem calcado nos trilhos do prog-metal, "Solare" foi mais além e conta com um oceano de variações e arranjos, costurados por diversas linha de instrumentações (viola caipira, violoncelo, flauta, violino, ukulele, etc), mas ainda assim conseguiu se mostrar mais direto e objetivo.


Nele vemos elementos de metal clássico, melódico, jazzisticos, influência de rock clássico e muita world music. Após "Origami" abrir o disco, com a nítida intenção de mesclar muitos momentos melódicos que se seguem posteriormente no disco, nossa viagem no expresso segue com "I a.m. Living", que vem com um metal direto e grudento, com um forte refrão (artifício sabiamente utilizados em outras músicas). O que se percebe no disco é que bateria, baixo e teclado ditam o formato das composições, ainda que as guitarras trazem o elo de ligação entre os 3 elementos, soando também bem diversificada, em solos e riffs. "Rooster Race" segue a linha mais direta da segunda faixa, mostrando muitos elementos de brasilidade ao longo de sua execução.

Em "Daily View" a direção do teclado remete a influências do Queen, e tem levada com a suavidade vocal e seus backings. "Waters Birds" caminha nessa direção de variação constante, apresentando uma levada orquestral, um belo trabalho de criação de guitarra, que se reveza com a força das vozes. "Keep Trying" enxerta momentos de hard rock e AOR na obra, se mostrando direta e onde as vozes tem uma força dramática, ancorada pelos backings.

Em "The Seed" um coral de dezenas de vozes introduz mais um tema que mistura peso, velocidade e vocais fortes. Chegamos em "Far West". O tema é conduzido pelo baixo, que abre os primeiros movimentos. A música tem seu tempo de velocidade, e clima conduzido por voz e guitarra que nos transporta sim para um clima western, como propõem o titulo e a letra da música.

A seguir o expresso aporta na estação de "Across the River", que poderia ser classificada como a mais radiofônica do disco. O início com cordas dedilhadas e vocal suave e dobrado, com aura de blues, dá espaço minutos depois à pegada pesada, com belas intervenções melódicas da guitarra. E eis que chega "Penitência", a única faixa em português do disco. E acredito que ela seja a passagem mais polêmica do álbum. Começa uma levada com influências de músicas nacionais em sua cadência rítmica (incluindo as percussões) e referências a personagens do folclore e história do Brasil. Mas ao contrário por exemplo de "Ratamahatta", do Sepultura, mais uma vez ela ganha contornos variados por conta da força das vozes, de Fábio bem como das cantoras principais dos backings, Danielle e Carol, além de outras participações.

Cada um terá suas preferências no disco, obviamente. Pra mim, as duas faixas que fecham a obra se encontram com essa condição. "Hijos de la Terra" inicia-se com a intenção dessa interação entre a world music e o heavy metal. Uma música poderosa, onde os elementos se entrosam de maneira simétrica. Bateria perfeita, elementos sonoros andinos e a inclusão precisa da cantora chilena Cinthia Santibañes, fazendo os refrães cantados em castelhano. Tem-se. a sensação que essa faixa será bem aclamada internacionalmente, muito por conta da dramaticidade envolvida.

E por fim, a viagem acaba em "Trainsitions", um trocadilho com o conceito do álbum e a transição que deverá ser encontrada na segunda parte do "Expresso Della Vita", álbum que será lançado nos próximos anos, trazendo a continuação do conceito de "Solare". Esta última faixa é uma suíte, dona muito bom gosto em sua melodia e um refrão daqueles que a gente fica cantarolando por dias.
Isto é apenas uma síntese de cada música, mas elas tem muitos mais detalhes, que a cada audição nos são revelados. A inserção de dezenas de elementos musicais se mostram corajosa, sem ser pretensiosa ou forçada. O álbum conta com a presença de diversos músicos convidados, como Fernando Freitas (percussão), Maurício Lopes (backings/vozes), Kevin Miura, Rosecler Caldeira, Bárbara Silva (vozes), dentre várias outras pessoas que participaram dos corais.

Em "Solare", o Maestrick foi ousado, se desafiou, foi ambicioso e conseguiu emplacar um álbum que será evidentemente muito elogiado mundo afora. Gravaram um majestoso álbum, assinaram com uma major e começar sua primeira tour internacional. Todos elementos que devem fazer com que o nível de sua carreira musical seja elevado a patamares muito maiores.


Uma conversa com Fábio e Montanha

Ready to Rock  - Como é a sensação, após longos anos de ver finalmente "Espresso della Vita - Solare" ser lançado?
Renato Montanha: É a mesma sensação de ver um filho nascer, nos proporcionando uma alegria gigantesca de poder mostrar ao mundo o nosso modo de expressar nossos pensamentos e sentimentos com música. É uma das coisas mais gratificantes do mundo.

Fábio Caldeira: Sinceramente, a minha ficha ainda não caiu. Porque a gente passa tanto tempo compondo, produzindo, depois gravando, aí decidindo as artes... “de repente” chega o lançamento e você assusta. Mas o sentimento em comum aqui é a gratidão. Por mais uma vez, termos tido condições de fazer o nosso melhor em cada detalhe desse novo disco.

RR - Vocês conseguiram um disco rico em composição, carregados de diversos elementos e variações, mas ao mesmo tempo direto e objetivo. Como isso aconteceu?
Montanha: Nós passamos anos compondo, testando e tentando chegar a um resultado final honesto fazendo diversos ensaios e pré-produções, para mostrar a historia do "Solare". Fizemos muitos testes e audições de todas as músicas para tudo “estar nos trilhos” para todos poderem entrar na primeira estação conosco e seguir viagem.

Fábio: Tudo foi de forma natural. E digo isso porque nós não estamos preocupados em sermos ninguém nem nada além de nós mesmos. A gente quer apenas pintar a nossa vizinhança, a nossa terra, as experiências que nós e as pessoas próximas a nós tiveram e tem. A música é uma consequência disso, eu penso, e aí quando um conceito de música aparece, nós procuramos ao máximo, deixa-la o mais visual possível, e isso faz com que tenhamos muito zelo, porque tudo que tem que dialogar.

RR - Que peso teve a participação de Adair na produção para fazer com que tanta complexidade gerasse um disco de tão alto nível?
Fábio: Olha, foi como se ele fosse parte da banda desde a primeira conversa que tivemos. Pessoalmente, ele se identifica muito com a abordagem artística do Maestrick, então foi fácil ele se integrar e aí colocar todo o seu conhecimento em prática.

Montanha: O Adair teve um grande peso pois além de gravar as guitarras ele tinha que fazer tudo soar no seu devido lugar (e nós usamos muitos instrumentos). Nós usamos várias camadas de arranjos, como se fosse um bolo mesmo, e é muito complexo fazer tudo soar quando temos varias frequências sendo disputadas e o Adair fez isso com maestria.

RR - Se "Unpuzzle!" já dava sinais que estávamos diante de um disco excepcional de estreia, "Solare" foi mais além. Mostrou um amadurecimento impressionante em termos de criação. Como vocês, de dentro da banda enxergam isso?
Montanha: Vejo isso como uma evolução de um trabalho árduo que estamos fazendo, nós sempre fomos abertos a escutar novas sonoridades e ouvir feedback das pessoas para melhorar a nossa forma de passar o que sentimos em música. Pode-se dizer que sempre estamos fazendo uma reciclagem de ideias.

Fábio: Muito obrigado mesmo por pensar isso. A verdade é que somos um bando de curiosos. Gostamos muito de estudar, de pesquisar, cada um dentro da vertente artística e musical que mais lhe interessa. Isso por si só, eu creio, já contribui para um movimento de amadurecimento, que por sua vez, traz uma maior percepção de quem somos, do que realmente queremos e do que precisamos para alcançar isso.

RR - Em "Solare" vemos momentos orquestrais, diversidade musical universal, elementos musicais brasileiros, e ainda assim traz a cara do metal da banda. Imagino que tenha sido por demais trabalhoso encaixar tudo isso ao longo das músicas?
Montanha: Nós sempre trabalhamos com vários estilos para manter as personalidades variadas dos integrantes da banda e não é a coisa mais fácil do mundo de se fazer, mas sempre buscamos ter um pé no rock e mostrar que a música é universal e pode-se ter mesclas interessantes.

Fábio: Nós temos muitas coisas em comum, mas acho que a chave está nas coisas que não temos em comum, porque isso faz com que tenhamos que nos adaptar e buscar uma reinvenção constante. E sobre ser trabalhoso, eu olho pelo lado de que é necessário, então se é a estrada que temos que percorrer para fazer o que gostamos da melhor forma possível, que seja.

RR - Qual a sensação de ter conseguido um contrato com major japonesa Marquee/Avalon?
Fábio: Primeiramente, de gratidão imensa. É um grande sonho realizado, uma grande honra e uma grande responsabilidade, pois temos que continuar seguindo com os valores que temos, com muito respeito e amor.

Montanha: Foi uma explosão mental, sempre sonhei em entrar no mercado asiático e antes de lançar o disco conseguir uma gravadora do calibre da Marquee/Avalon foi algo que até hoje estou digerindo.

RR - O álbum foi lançado no mundo todo. O que esperar que esse fato eleve a carreira  da banda para um nível maior de reconhecimento?
Montanha:
Eu acredito que o importante é que o mundo tenha a possibilidade de escutar nosso material para que possamos ir pessoalmente mostrar o que temos a oferecer em performance.

Fábio: Nós estamos atentos para o que vier, mas o principal é mantermos o foco e seguirmos um passo de cada vez. Assim o próximo degrau, seja lá qual for, será natural e uma simples consequência.

RR - Em outubro estão programados 15 shows na Rússia, Suíça, Itália, Alemanha. Qual a expectativa?
Fábio
: Vai ser sensacional! Estamos muito felizes e ansiosos. Será uma experiência incrível e pretendemos fazer um documentário de toda a tour pra lançarmos posteriormente.

Montanha: As melhores possíveis, estou com um frio na barriga por ser a primeira tour europeia mas vamos levar o nosso melhor e vamos abrir nossos corações no palco para que o público assista nosso show com a honestidade que passamos nas músicas.

RR - Como se dará a escolha do repertório em relação às novas músicas, uma vez que não será possível reproduzir ao vivo em muitas delas todos os elementos gravados?
Montanha:
No show de estreia tocaremos o "Solare" na íntegra e colocaremos algumas musicas que sabemos que o público gosta de ver ao vivo do "Unpuzzle".

Fábio: Mesmo que as músicas tenham muitos elementos, se você tirar tudo e deixar só guitarra, baixo, bateria, teclado e uma voz, elas vão funcionar também. É uma preocupação que temos quando estamos compondo. Além disso, nós tocamos com o metrônomo o show inteiro, então todos os elementos das músicas estarão lá. Não deixaremos de tocar nada, mas elementos como sonoplastias, e algumas percussões e coros, como o de 32 vozes da “The Seed”, vão para o “VS”, como é feito normalmente em grandes shows.

RR - Depois do disco sair no Brasil, como tem sido a recepção dos brasileiros que tiveram contato com o disco?
Fábio
: Está sendo sensacional! A galera está abrindo o coração para o disco e tendo, cada um da sua forma, uma experiência. Essa foi nossa intenção desde o começo. Isso estreita nossa relação com o público, afinal, o que é de um trem, sem seus passageiros?

Montanha: Foi maravilhosa, várias pessoas comentam de aspectos que gostaram do disco físico, de algum detalhe no encarte e isso é muito empolgante para mim.
 
RR - Uma pergunta que tenho que fazer. A música da banda está cada vez mais rica e variada. A linha de frente do Maestrick, ao longo dos últimos anos, tem sido Fábio, Heitor e Montanha. Como uma banda de heavy metal (que tem a marca progressiva como referência) não possui um guitarrista fixo?
Montanha: Por enquanto não encontramos o guitarrista fixo mas faremos mais audições para selecionar um guitarrista em breve e temos o Neemias Teixeira nos teclados como membro fixo da banda.

Fábio: Muitas pessoas acham que ter uma banda é só conseguir tocar as músicas, ir em ensaios e fazer shows. Mas, isso é apenas, e repito, apenas, uma pequena parte de todo o trabalho. Encontrar pessoas que estão dispostas a entender isso e a trabalhar com o afinco, profissionalismo e responsabilidade não é fácil. Com muita alegria seremos daqui pra frente, quatro na linha de frente, como o Montanha disse. Mas estamos fazendo ensaios com guitarristas desde o ano passado, então no momento oportuno, encontraremos alguém, como encontramos o Neme (Neemias Teixeira). E para os shows que já temos, contaremos com um convidado, o guitarrista Vitor Mancini, de Ribeirão Preto.

RR - Tenho a sensação de que todos na banda participam do processo de composição das músicas? Como se dá isso?
Fábio: Sim, todos participam. Nós somos quatro pessoas que convergem para o mesmo lugar. Mesmo que a mesma pessoa traga 10 ideias, todos darão opinião sobre ela. E de alguma forma, nós sabemos muito bem onde cada um se sente mais à vontade. Seja criando um riff, um groove, uma melodia, variação harmônica, nós confiamos uns nos outros e sempre fazemos o que é melhor pra música.
Montanha: Todos temos voz livre para mostrar ideias e trabalhar nelas. Quando um traz uma ideia nós a tratamos com respeito e tentamos fazer algo com ela, todos dão sugestões para transformar esta ideia em algo que se torne uma música, as vezes a ideia de bateria se torna um riff de guitarra por isso que todos participam das composições.


RR - A previsão é que a carreira da banda tenha altos voos daqui pra frente. Como será para os músicos, mantendo residência em São José do Rio Preto? Há planos para uma mudança residencial geográfica?
Montanha: Não há previsão para nos mudarmos, hoje em dia conseguimos nos locomover e trabalhar sem ter que morar em um grande polo como São Paulo e Rio Preto é a nossa cidade de coração.
Fábio: Muito tranquilo. Tudo o que estamos fazendo e faremos, sempre acontece depois de muito planejamento. Então, não importa se teremos que ficar um mês ou mais fora, seja onde for e por qual razão. Iremos, mas voltaremos pra casa. Eu acho que ter um lugar pra voltar que você ama, é uma das coisas que tornam as viagens especiais.

RR - Fique à vontade para finalizar com a informação que desejar.
Fábio: Muito obrigado por ouvir o disco, por fazer essas perguntas, pela intenção de nos ajudar, por ceder o espaço e pela amizade. Eu desejo, de coração, que a viagem de todos nessa vida seja de muitas lições, de respeito ao próximo e de belas experiências, porque isso é toda a bagagem que a gente leva, quando chega nossa hora de descer. Um forte abraço!

Montanha: Eu quero agradecer imensamente a possibilidade de responder esta entrevista, fico muito honrado de poder falar sobre a banda e o "Solare" e de comunicar o show de estreia da Maestrick dia 29 de julho as 20h no Vila Dionísio-RP, lá teremos uma loja com produtos a venda e esperamos todos amigos e fãs. Valeu.

Contatos:
https://www.facebook.com/maestrick/

"Espresso Della Vita: Solare" nas principais plataformas digitais:
Google Play: http://bit.ly/2tTCyub

A versão física em digipack está à venda na Die Hard Records: http://bit.ly/2MTr2pR