domingo, 2 de setembro de 2018

Motordrunk mostra excepcional produção sonora em seu primeiro álbum



A produção de novas e excelentes bandas da cena rock/metal do Brasil parece ter migrado da escala manufaturada para a industrial. Isso porque a quantidade e qualidade de grupos que surgem anualmente por estas terras é absurda. Eu diria que, se no quesito mercado de shows (quantidade de eventos, padrões de equipamentos, exposição em mídia, retorno financeiro a músicos e produtores) ainda estamos bem abaixo do que se faz lá fora, em termos de criação temos uma das melhores cenas do planeta. E a banda a qual vamos expor nessa resenha é mais uma que corrobora esta condição. Motordrunk, natural de São José do Rio Preto/SP, debuta em seu primeiro álbum, autointitulado "Motordrunk". Criado em 2009, o grupo começou sua trajetória executando covers de grandes artistas do hard rock e heavy metal, em shows por sua região. Não por acaso, as características de sua música autoral se posiciona nesse mesmo patamar - heavy metal moderno e classudo, com algumas pitadas de hard rock (pesado). Ao mesmo tempo que traz referências a nomes antigos como Ozzy (fase Zack Wylde) remete à galera da geração atual, como Black Country Communion, Dream Evil ou Monster Truck.  De uma forma geral, a presença de vocais marcantes, teclado, bateria precisa e a força criativa da guitarra garantem à banda uma aura bem própria, distanciando-se de qualquer possibilidade de soar idêntica a qualquer banda já estabelecida.

A formação atual é composta por Sérgio "Naza" Guimarães (vocais), Raphael Dias (Guitarra), Jovani "Fera" (bateria), Maurício Lopes (teclados,backings) e Renato Montanha (baixista do conterrâneo Maestrick). As captações e pré-produção do foram realizadas em sua cidade natal, e a mixagem e masterização ficou a cargo do renomado produtor Adair Daufembach  (Project 46, Hangar, Maestrick).  A arte da capa foi criada pelo designer Wildner Lima, de Rio Claro/SP.

É bem comum  a reflexão, dentre os apreciadores do estilo, da presença e relevância do teclado em formações heavy metal. Herança do hard setentista, nos modelos máximos de Purple e Uriah Heep, os teclados foram peça fundamental para o estouro das bandas de power metal melódico dos anos 1990/2000. Mas, mesmo no metal clássico, encontramos diversos exemplos de grupos que incluíram tal recurso, como Black Sabbath, Ozzy solo, Savatage, Queensryche. Aqui no Motordrunk, o teclado se insere na música como um integrante representativo tanto quanto os demais instrumentos, sendo que em diversos momentos do disco percebe-se a presença de tal instrumento no desenvolvimento da ideia da música.



Motordrunk, o disco

A sonoridade de todos os elementos está por demais equilibrada. Todos os instrumentos estão bem nítidos e conseguem transportar ao ouvinte cada uma de suas intenções criativas. O que salta aos olhos (e ouvidos) é a força da guitarra, com riffs marcantes e uma impressionante gama na construção dos solos. O álbum começa com o que se convencionaria chamar de hit, a faixa título "Motordrunk" com seus riffs grudentos e um grande refrão.

"New Kind of Freak" (os refrães lembram um Kiss e conta com um solo de guitarra muito interessante) e "Drunk and Dangerous" (belo jogo de vozes) têm um relances de hard em suas pontes e contam uma pegada visceral do baixo.  Em "Scars", temos a faixa mais sabbathica da banda (se integrasse o "13" ninguém se espantaria). "Break Away" tem aquele lado hard pesado com uma pegada bem massa nos refrães e dá-lhe rifferama pesada.

Riffs calvagados e uma bateria direta emolduram "Black Machinery", uma das mais agressivas do disco. A bateria rápida e versátil marca os andamentos de "Regression", que tem certa alternância de cadência, bem pesada e com um solo certeiro de guitarra.

"Drink Away the Storm" abre com um clima southern com direito a violões e slide, seguido por um vocal introspectivo. Aos poucos a faixa vai se encorpando com licks. Lá pelos 2 minutos o peso visceral retorna, com riffs na cara, mais um excelente solo de guitarra e vocais dramáticos. Pela atuação das vozes e melodia, "Underdog" lembra um pouco a fase atual do Anthrax. Por fim, "Quicksand", uma clássica balada pesada introduzida pelo teclado, que intervem com destaque em toda a faixa, mesmo nas partes mais pesadas.

O que se percebe é que a grande qualidade do álbum pode ser fruto, dentre outras coisas, da experiência que seus integrantes , tendo participado há décadas, de várias bandas da cena underground de Rio Preto, como Nothing Face, Cabrero e Last Wizzard. Mas, sem olhar para traz, o Motordrunk se muniu de elementos clássicos para gerar uma sonoridade com o frescor da modernidade, dando parceria entre o tradicional e o novo. Um belo álbum de estreia, direto, agradável, daqueles que dá vontade de ouvir diversas vezes. É apenas um começo certeiro, mas, se a banda mantiver esse esmero nos cuidados com a produção e tão impactante poder de composição, o Brasil ainda ouvir falar muito de Motordrunk.

O álbum já está disponível nas plataformas musicais e em breve terá sua edição física lançada


Uma conversa com Maurício Lopes

Ready to Rock - Após quase 10 anos de carreira, o Motordrunk finalmente lança seu álbum de estreia. Porque demorou tanto?
Maurício Lopes - A banda foi formada inicialmente com o intuito de executar covers das preferências de seus integrantes, executando-os pelos pubs da região. Foi apenas em 2014 que decidimos partir para as autorais, já que era vontade de todos. Tínhamos que conciliar os horários de encontro para as composições com os eventuais empregos de cada membro e o mesmo aconteceu com as gravações.

RR - Como funciona o esquema de composição no grupo?
ML - Para esse debut foi feito da seguinte forma:  Primeiro apresenta-se alguns riffs e passagens de composições. Em seguida é efetuada a estrutura e os arranjos. Então é definido o tema da música, onde é feita a letra. Já estamos preparando o material do próximo álbum, onde poderá haver alterações nesse processo. Já temos composições criadas a partir da bateria.

RR - Montanha, do Maestrick, participou da gravação do disco. Ele será integrante fixo ou a  banda vai buscar outro baixista?
ML - Não estamos em busca de um baixista fixo no momento. Estaremos trabalhando com o Montanha nas divulgações do debut Motordrunk. Depois veremos o que o futuro nos reserva... (risos)

RR - É excepcional a qualidade da produção do disco. Como chegaram a este patamar?
ML - Primeiramente, muito obrigado pelo elogio. Quando decidimos lançar o álbum Motordrunk, queríamos que ele tivesse qualidade de gravação suficientemente boa para estar ao lado dos álbuns de nossos ídolos, então deixamos a coisa fluir, mas de forma minuciosa. Então juntamos forças com o Adair, que nos foi muito bem indicado.

RR - A produção do Adair (como ocorre normalmente com produtores) teve influência no que diz respeito a alterações de arranjos ou inclusão de elementos nas faixas já compostas?
ML - A influência maior do Adair na produção foi durante a pré produção, onde ele criou as guias, para que captássemos de forma mais orgânica. Ele também acrescentou alguns detalhes na "Break Away" e na estrutura da Black "Machinery". Também foi responsável pela mixagem e masterização do álbum.


RR - Apesar do álbum seguir o padrão heavy, percebe-se bastante variação entre as faixas, algumas com cara de hard, outras com níveis de velocidade distintas, outras com diferentes padrões de riffs. Seria fruto de quais influências de vocês?
ML - Com certeza sim. Apesar de termos muitas influências em comum, os membros da banda tem também influências e gostos musicais distintos um do outro, o que pode sim ter influenciado diretamente nas composições.

RR - Apesar do disco estar bem nivelado em termos de boas composições, gostei bastante das faixas "Motordrunk", "Break Away", "Drink Away the Storm", "Underdog" e "Quicksand". Vocês tem algumas preferências pessoais?
ML - É muito difícil em relação a preferência. Afinal, todas são nossas filhas que queremos entregar ao mundo...(risos). Mas, particularmente, acredito que a “Black Machinery”. Além de ser uma das que mais gosto de executar, ela também mostra duas grandes influências musicais da banda, sem contar a letra que trata-se de um assunto bem atual. A “Quicksand” também se destaca para mim, por ser uma parte muito importante do meu passado. Não posso me esquecer da "Scars", que também é uma das preferidas do “Fera” (Jovani), junto com a "Break Away". Para o “69” (Rafael) destaca-se a “New Kind Of Freak”, que mostra um lado mais Hard Rock, que é sua principal influência. Já o “Naza” (Sérgio) tem um carinho especial pela “Drink away the storm” que foi baseada em um sonho maluco que ele teve.

RR -  Sabemos da dificuldade das bandas autorais em Rio Preto. Mesmo assim vejo muita banda daqui lançado trabalhos nesse segmento. Como você enxerga esse cenário?
ML -  Infelizmente, o cenário Rio-pretense está desfavorecido para o rock, no momento. Mesmo não tendo muito espaço, ainda existe um determinado público fiel ao estilo, então é muito importante que as bandas remanescentes continuem levantando essa bandeira.

RR - Parece que você, Maurício, teve que se afastar temporariamente por questões de saúde. Como está a previsão de volta? Isso deve prejudicar a divulgação do disco?
ML - Meu retorno às atividades normais será em outubro. Isso não será prejudicial, já que a banda pretende lidar com os shows a partir de novembro. Outras atividades estamos conseguindo realizar virtualmente.

RR - Como tem sentido a repercussão do disco até agora?
ML - Muito positiva até agora. Estaremos nas próximas edições de algumas revistas europeias. Também com participação em rádios alemãs.

RR - Quando deve sair a versão em CD do álbum?
ML - Temos previsão para o lançamento no início de outubro.

RR - Existem planos para shows pelo Brasil afora?
ML - Sim. Temos a intenção de levar nosso som para o Brasil e também para o resto do mundo.

RR - Quais os planos futuros da banda?
ML - Temos a intenção de levar nossa música para o mundo todo, então estamos planejando uma “pequena tour” pelas principais cidades do país e, em seguida, para o exterior.
Também iniciaremos os trabalhos para o próximo álbum.

RR - Fique à vontade para deixam qualquer mensagem ou outras informações sobre a banda.
ML - Estamos vendo nossos ídolos morrerem e a maioria das bandas atuais estão partindo para outros estilos. A Motordrunk está aqui para manter acesa essa chama, ajudando a perpetuar o Heavy Metal que tanto nos influenciou.

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Contate a banda

https://www.facebook.com/ motordrunk





terça-feira, 24 de julho de 2018

Maestrick: novo álbum coloca a banda na rota do metal mundial



Quando nos referimos ao assunto rock and roll (e sua família de subestilos), é muito comum se ouvir que "o rock está estagnado", ou "hoje apenas se copiam coisas do passado, nada se cria". Em muitas situações isso se aplica sem dúvida. Mas não se pode afirmar que não seja criado algo de interessante e de supremo valor artístico, advindo de músicos que ainda hoje atuam na criação autoral do rock. O que vamos abordar a seguir é apenas mais uma prova cabal disso.

Quando lançou, em 2011, seu primeiro álbum, "Unpuzzle!", a banda paulista Maestrick não só cravou um dos melhores discos de estreia de uma banda nacional, como surpreendeu crítica e público com uma coleção de ótimas e bem produzidas canções, cuja maior referência se estabelecia no prog-metal. Após o álbum ser também lançado na Europa, EUA e Ásia, a banda fez diversos shows no Brasil e até no Chile. Em 2013, em meio ao processo de composição do que viria a se tornar o sucessor de "Unpuzzle!", a banda soltou o EP "The Trick Side Of Some Songs", com versões de artistas que foram algumas de suas influências confessas, como Queen, Dio, Jethro Tull, Floyd, Beatles e outros.

Em 2018, o grupo anunciou o fechamento de contrato com a gravadora japonesa Marquee/Avalon, uma das grandes gravadora mundiais, para distribuir seu novo álbum "Espresso Della Vita - Solare" no mundo todo. No Brasil o disco saiu em 28 de junho de 2018, após uma noite de lançamento no evento do Central Panelaço, em São Paulo/SP, que contou com a presença de músicos como João Gordo (RDP). O disco, que saiu anteriormente no Japão, recebeu a nota 86/100, da revista japonesa Burrn!.

Não há como destacar a atuação diferenciada de um ou outro músico, visto que todos mostraram evolução técnica ao longo dos últimos anos. O que mais sente-se no entanto é a amadurecida capacidade de composição deles. A bateria é precisa em andamentos e viradas e um baixo técnico sempre na cara, junto a levadas de muito bom gosto de teclados e vocais carregados com a dose certa de dramaticidade.

A banda junto a João Gordo na audição de "Solare" em São Paulo

O que o Maestrick apresenta então em "Solare"? Se tivesse uma expressão que pudesse resumir o trabalho esta seria "diversidade criativa". Mas é muito pouco para definir o que Fábio Caldeira (vocal/teclado), Heitor Matos (bateria) e Renato Montanha (baixo) conseguiram registrar no álbum. Isto porque estamos diante de uma dos mais criativos, inteligentes, interessantes e cativantes discos que uma banda de heavy metal já lançou no Brasil. E vou mais além, não é fácil lembrar de uma banda em todo o globo que tenha feito recentemente um trabalho com tão intensa densidade artística.

O trio que capitaneia a banda, se juntou ao renomado produtor brasileiro Adair Daufembach (Project46, John Wayne, Hangar), que foi o responsável por registrar também as guitarras do disco, que se mostram por demais surpreendentes. Recentemente o tecladista Neemias Teixeira ingressou na banda. Se o primeiro álbum já trazia muita variação ainda que bem calcado nos trilhos do prog-metal, "Solare" foi mais além e conta com um oceano de variações e arranjos, costurados por diversas linha de instrumentações (viola caipira, violoncelo, flauta, violino, ukulele, etc), mas ainda assim conseguiu se mostrar mais direto e objetivo.


Nele vemos elementos de metal clássico, melódico, jazzisticos, influência de rock clássico e muita world music. Após "Origami" abrir o disco, com a nítida intenção de mesclar muitos momentos melódicos que se seguem posteriormente no disco, nossa viagem no expresso segue com "I a.m. Living", que vem com um metal direto e grudento, com um forte refrão (artifício sabiamente utilizados em outras músicas). O que se percebe no disco é que bateria, baixo e teclado ditam o formato das composições, ainda que as guitarras trazem o elo de ligação entre os 3 elementos, soando também bem diversificada, em solos e riffs. "Rooster Race" segue a linha mais direta da segunda faixa, mostrando muitos elementos de brasilidade ao longo de sua execução.

Em "Daily View" a direção do teclado remete a influências do Queen, e tem levada com a suavidade vocal e seus backings. "Waters Birds" caminha nessa direção de variação constante, apresentando uma levada orquestral, um belo trabalho de criação de guitarra, que se reveza com a força das vozes. "Keep Trying" enxerta momentos de hard rock e AOR na obra, se mostrando direta e onde as vozes tem uma força dramática, ancorada pelos backings.

Em "The Seed" um coral de dezenas de vozes introduz mais um tema que mistura peso, velocidade e vocais fortes. Chegamos em "Far West". O tema é conduzido pelo baixo, que abre os primeiros movimentos. A música tem seu tempo de velocidade, e clima conduzido por voz e guitarra que nos transporta sim para um clima western, como propõem o titulo e a letra da música.

A seguir o expresso aporta na estação de "Across the River", que poderia ser classificada como a mais radiofônica do disco. O início com cordas dedilhadas e vocal suave e dobrado, com aura de blues, dá espaço minutos depois à pegada pesada, com belas intervenções melódicas da guitarra. E eis que chega "Penitência", a única faixa em português do disco. E acredito que ela seja a passagem mais polêmica do álbum. Começa uma levada com influências de músicas nacionais em sua cadência rítmica (incluindo as percussões) e referências a personagens do folclore e história do Brasil. Mas ao contrário por exemplo de "Ratamahatta", do Sepultura, mais uma vez ela ganha contornos variados por conta da força das vozes, de Fábio bem como das cantoras principais dos backings, Danielle e Carol, além de outras participações.

Cada um terá suas preferências no disco, obviamente. Pra mim, as duas faixas que fecham a obra se encontram com essa condição. "Hijos de la Terra" inicia-se com a intenção dessa interação entre a world music e o heavy metal. Uma música poderosa, onde os elementos se entrosam de maneira simétrica. Bateria perfeita, elementos sonoros andinos e a inclusão precisa da cantora chilena Cinthia Santibañes, fazendo os refrães cantados em castelhano. Tem-se. a sensação que essa faixa será bem aclamada internacionalmente, muito por conta da dramaticidade envolvida.

E por fim, a viagem acaba em "Trainsitions", um trocadilho com o conceito do álbum e a transição que deverá ser encontrada na segunda parte do "Expresso Della Vita", álbum que será lançado nos próximos anos, trazendo a continuação do conceito de "Solare". Esta última faixa é uma suíte, dona muito bom gosto em sua melodia e um refrão daqueles que a gente fica cantarolando por dias.
Isto é apenas uma síntese de cada música, mas elas tem muitos mais detalhes, que a cada audição nos são revelados. A inserção de dezenas de elementos musicais se mostram corajosa, sem ser pretensiosa ou forçada. O álbum conta com a presença de diversos músicos convidados, como Fernando Freitas (percussão), Maurício Lopes (backings/vozes), Kevin Miura, Rosecler Caldeira, Bárbara Silva (vozes), dentre várias outras pessoas que participaram dos corais.

Em "Solare", o Maestrick foi ousado, se desafiou, foi ambicioso e conseguiu emplacar um álbum que será evidentemente muito elogiado mundo afora. Gravaram um majestoso álbum, assinaram com uma major e começar sua primeira tour internacional. Todos elementos que devem fazer com que o nível de sua carreira musical seja elevado a patamares muito maiores.


Uma conversa com Fábio e Montanha

Ready to Rock  - Como é a sensação, após longos anos de ver finalmente "Espresso della Vita - Solare" ser lançado?
Renato Montanha: É a mesma sensação de ver um filho nascer, nos proporcionando uma alegria gigantesca de poder mostrar ao mundo o nosso modo de expressar nossos pensamentos e sentimentos com música. É uma das coisas mais gratificantes do mundo.

Fábio Caldeira: Sinceramente, a minha ficha ainda não caiu. Porque a gente passa tanto tempo compondo, produzindo, depois gravando, aí decidindo as artes... “de repente” chega o lançamento e você assusta. Mas o sentimento em comum aqui é a gratidão. Por mais uma vez, termos tido condições de fazer o nosso melhor em cada detalhe desse novo disco.

RR - Vocês conseguiram um disco rico em composição, carregados de diversos elementos e variações, mas ao mesmo tempo direto e objetivo. Como isso aconteceu?
Montanha: Nós passamos anos compondo, testando e tentando chegar a um resultado final honesto fazendo diversos ensaios e pré-produções, para mostrar a historia do "Solare". Fizemos muitos testes e audições de todas as músicas para tudo “estar nos trilhos” para todos poderem entrar na primeira estação conosco e seguir viagem.

Fábio: Tudo foi de forma natural. E digo isso porque nós não estamos preocupados em sermos ninguém nem nada além de nós mesmos. A gente quer apenas pintar a nossa vizinhança, a nossa terra, as experiências que nós e as pessoas próximas a nós tiveram e tem. A música é uma consequência disso, eu penso, e aí quando um conceito de música aparece, nós procuramos ao máximo, deixa-la o mais visual possível, e isso faz com que tenhamos muito zelo, porque tudo que tem que dialogar.

RR - Que peso teve a participação de Adair na produção para fazer com que tanta complexidade gerasse um disco de tão alto nível?
Fábio: Olha, foi como se ele fosse parte da banda desde a primeira conversa que tivemos. Pessoalmente, ele se identifica muito com a abordagem artística do Maestrick, então foi fácil ele se integrar e aí colocar todo o seu conhecimento em prática.

Montanha: O Adair teve um grande peso pois além de gravar as guitarras ele tinha que fazer tudo soar no seu devido lugar (e nós usamos muitos instrumentos). Nós usamos várias camadas de arranjos, como se fosse um bolo mesmo, e é muito complexo fazer tudo soar quando temos varias frequências sendo disputadas e o Adair fez isso com maestria.

RR - Se "Unpuzzle!" já dava sinais que estávamos diante de um disco excepcional de estreia, "Solare" foi mais além. Mostrou um amadurecimento impressionante em termos de criação. Como vocês, de dentro da banda enxergam isso?
Montanha: Vejo isso como uma evolução de um trabalho árduo que estamos fazendo, nós sempre fomos abertos a escutar novas sonoridades e ouvir feedback das pessoas para melhorar a nossa forma de passar o que sentimos em música. Pode-se dizer que sempre estamos fazendo uma reciclagem de ideias.

Fábio: Muito obrigado mesmo por pensar isso. A verdade é que somos um bando de curiosos. Gostamos muito de estudar, de pesquisar, cada um dentro da vertente artística e musical que mais lhe interessa. Isso por si só, eu creio, já contribui para um movimento de amadurecimento, que por sua vez, traz uma maior percepção de quem somos, do que realmente queremos e do que precisamos para alcançar isso.

RR - Em "Solare" vemos momentos orquestrais, diversidade musical universal, elementos musicais brasileiros, e ainda assim traz a cara do metal da banda. Imagino que tenha sido por demais trabalhoso encaixar tudo isso ao longo das músicas?
Montanha: Nós sempre trabalhamos com vários estilos para manter as personalidades variadas dos integrantes da banda e não é a coisa mais fácil do mundo de se fazer, mas sempre buscamos ter um pé no rock e mostrar que a música é universal e pode-se ter mesclas interessantes.

Fábio: Nós temos muitas coisas em comum, mas acho que a chave está nas coisas que não temos em comum, porque isso faz com que tenhamos que nos adaptar e buscar uma reinvenção constante. E sobre ser trabalhoso, eu olho pelo lado de que é necessário, então se é a estrada que temos que percorrer para fazer o que gostamos da melhor forma possível, que seja.

RR - Qual a sensação de ter conseguido um contrato com major japonesa Marquee/Avalon?
Fábio: Primeiramente, de gratidão imensa. É um grande sonho realizado, uma grande honra e uma grande responsabilidade, pois temos que continuar seguindo com os valores que temos, com muito respeito e amor.

Montanha: Foi uma explosão mental, sempre sonhei em entrar no mercado asiático e antes de lançar o disco conseguir uma gravadora do calibre da Marquee/Avalon foi algo que até hoje estou digerindo.

RR - O álbum foi lançado no mundo todo. O que esperar que esse fato eleve a carreira  da banda para um nível maior de reconhecimento?
Montanha:
Eu acredito que o importante é que o mundo tenha a possibilidade de escutar nosso material para que possamos ir pessoalmente mostrar o que temos a oferecer em performance.

Fábio: Nós estamos atentos para o que vier, mas o principal é mantermos o foco e seguirmos um passo de cada vez. Assim o próximo degrau, seja lá qual for, será natural e uma simples consequência.

RR - Em outubro estão programados 15 shows na Rússia, Suíça, Itália, Alemanha. Qual a expectativa?
Fábio
: Vai ser sensacional! Estamos muito felizes e ansiosos. Será uma experiência incrível e pretendemos fazer um documentário de toda a tour pra lançarmos posteriormente.

Montanha: As melhores possíveis, estou com um frio na barriga por ser a primeira tour europeia mas vamos levar o nosso melhor e vamos abrir nossos corações no palco para que o público assista nosso show com a honestidade que passamos nas músicas.

RR - Como se dará a escolha do repertório em relação às novas músicas, uma vez que não será possível reproduzir ao vivo em muitas delas todos os elementos gravados?
Montanha:
No show de estreia tocaremos o "Solare" na íntegra e colocaremos algumas musicas que sabemos que o público gosta de ver ao vivo do "Unpuzzle".

Fábio: Mesmo que as músicas tenham muitos elementos, se você tirar tudo e deixar só guitarra, baixo, bateria, teclado e uma voz, elas vão funcionar também. É uma preocupação que temos quando estamos compondo. Além disso, nós tocamos com o metrônomo o show inteiro, então todos os elementos das músicas estarão lá. Não deixaremos de tocar nada, mas elementos como sonoplastias, e algumas percussões e coros, como o de 32 vozes da “The Seed”, vão para o “VS”, como é feito normalmente em grandes shows.

RR - Depois do disco sair no Brasil, como tem sido a recepção dos brasileiros que tiveram contato com o disco?
Fábio
: Está sendo sensacional! A galera está abrindo o coração para o disco e tendo, cada um da sua forma, uma experiência. Essa foi nossa intenção desde o começo. Isso estreita nossa relação com o público, afinal, o que é de um trem, sem seus passageiros?

Montanha: Foi maravilhosa, várias pessoas comentam de aspectos que gostaram do disco físico, de algum detalhe no encarte e isso é muito empolgante para mim.
 
RR - Uma pergunta que tenho que fazer. A música da banda está cada vez mais rica e variada. A linha de frente do Maestrick, ao longo dos últimos anos, tem sido Fábio, Heitor e Montanha. Como uma banda de heavy metal (que tem a marca progressiva como referência) não possui um guitarrista fixo?
Montanha: Por enquanto não encontramos o guitarrista fixo mas faremos mais audições para selecionar um guitarrista em breve e temos o Neemias Teixeira nos teclados como membro fixo da banda.

Fábio: Muitas pessoas acham que ter uma banda é só conseguir tocar as músicas, ir em ensaios e fazer shows. Mas, isso é apenas, e repito, apenas, uma pequena parte de todo o trabalho. Encontrar pessoas que estão dispostas a entender isso e a trabalhar com o afinco, profissionalismo e responsabilidade não é fácil. Com muita alegria seremos daqui pra frente, quatro na linha de frente, como o Montanha disse. Mas estamos fazendo ensaios com guitarristas desde o ano passado, então no momento oportuno, encontraremos alguém, como encontramos o Neme (Neemias Teixeira). E para os shows que já temos, contaremos com um convidado, o guitarrista Vitor Mancini, de Ribeirão Preto.

RR - Tenho a sensação de que todos na banda participam do processo de composição das músicas? Como se dá isso?
Fábio: Sim, todos participam. Nós somos quatro pessoas que convergem para o mesmo lugar. Mesmo que a mesma pessoa traga 10 ideias, todos darão opinião sobre ela. E de alguma forma, nós sabemos muito bem onde cada um se sente mais à vontade. Seja criando um riff, um groove, uma melodia, variação harmônica, nós confiamos uns nos outros e sempre fazemos o que é melhor pra música.
Montanha: Todos temos voz livre para mostrar ideias e trabalhar nelas. Quando um traz uma ideia nós a tratamos com respeito e tentamos fazer algo com ela, todos dão sugestões para transformar esta ideia em algo que se torne uma música, as vezes a ideia de bateria se torna um riff de guitarra por isso que todos participam das composições.


RR - A previsão é que a carreira da banda tenha altos voos daqui pra frente. Como será para os músicos, mantendo residência em São José do Rio Preto? Há planos para uma mudança residencial geográfica?
Montanha: Não há previsão para nos mudarmos, hoje em dia conseguimos nos locomover e trabalhar sem ter que morar em um grande polo como São Paulo e Rio Preto é a nossa cidade de coração.
Fábio: Muito tranquilo. Tudo o que estamos fazendo e faremos, sempre acontece depois de muito planejamento. Então, não importa se teremos que ficar um mês ou mais fora, seja onde for e por qual razão. Iremos, mas voltaremos pra casa. Eu acho que ter um lugar pra voltar que você ama, é uma das coisas que tornam as viagens especiais.

RR - Fique à vontade para finalizar com a informação que desejar.
Fábio: Muito obrigado por ouvir o disco, por fazer essas perguntas, pela intenção de nos ajudar, por ceder o espaço e pela amizade. Eu desejo, de coração, que a viagem de todos nessa vida seja de muitas lições, de respeito ao próximo e de belas experiências, porque isso é toda a bagagem que a gente leva, quando chega nossa hora de descer. Um forte abraço!

Montanha: Eu quero agradecer imensamente a possibilidade de responder esta entrevista, fico muito honrado de poder falar sobre a banda e o "Solare" e de comunicar o show de estreia da Maestrick dia 29 de julho as 20h no Vila Dionísio-RP, lá teremos uma loja com produtos a venda e esperamos todos amigos e fãs. Valeu.

Contatos:
https://www.facebook.com/maestrick/

"Espresso Della Vita: Solare" nas principais plataformas digitais:
Google Play: http://bit.ly/2tTCyub

A versão física em digipack está à venda na Die Hard Records: http://bit.ly/2MTr2pR




quarta-feira, 4 de outubro de 2017

A Estação da Luz: a evolução e a tradição setentista juntas no novo álbum, "O Segundo"


Como já se ouviu muitas vezes em conceitos futebolísticos, em time que está ganhando não se mexe. Pois é. Pegando carona nesse clichê, poderíamos aplicar tal conceito ao que acontece à banda paulista A Estação da Luz (São José do Rio Preto/SP). Após lançar seu primeiro e icônico disco, "Estação da Luz", o Estação solta agora seu segundo álbum, simplesmente intitulado "O Segundo".  E nesse caso, não só o time não se alterou como também se manteve o esquema tático. Isso porque a banda manteve a sonoridade na qual estreou em gravações e na qual continua se desenvolvendo. Ancorada por sonoridades setentistas e com elementos de gente como Rita Lee, Beatles, MPB, e bandas clássicas nacionais dos 70 como O Terço e Casa das Máquinas, o Estação parece que conseguiu algo sonhado por muitas das bandas da atualidade: criar uma cara própria. Uma marca que identifique sua música e que a  se associe a seu nome. Isso mesmo, porque, se alguém ouvir suas novas músicas sem saber quem as interprete vai lembrar do Estação. É uma situação rara hoje em dia. A mistura da suavidade vocal junto à cozinha, baixo/batera, enraizada à variedade clássica do rock 70, ao teclado com efeitos psicodélicos e graves da atmosfera vanguardista e aos fraseados de guitarra hora colados em Beatles, hora com pés no modernismo, fazem com que o som que o Estação faz se torne ao mesmo tempo atual e saudosista, e principalmente, se situe no território do agradável.


"O Segundo"

O álbum foi gravado e mixado pela própria banda, em seu estúdio, o histórico Área 13. A capa é de autoria do excepcional designer brasileiro Fábio Matta.


O título do disco é óbvio que é auto explicativo. Quando lançou "Estação da Luz", em 2012, a banda veio com uma proposta saudável e admirável de fazer o antigo soar atual, soar agradável, na ideia de que a música rock é atemporal. E a sequência mostra tratar-se da filosofia musical da trupe. Não há música antiga. A sonoridade psicodélica e poética dos 70 pode ser atual, pode ser contemporânea.

Quando se ouve "Segundo" sentimos o Estação à vontade com suas propostas. Não é algo forçado ou planejado para soar assim ou assado. É assim que o quinteto quer expressar sua música. Sobre temas que versam sobre romantismo ou existencialismo se fazem como esteio uma estrutura musical calcada no rock, na MPB e em passagens que flertam com o jazz.

Algumas faixas incursionam (e muito bem) elementos do rock progressivo, como na instrumental "Papo Furado" (guitarras com efeitos dos 70 e o baixo num ótimo contraponto), a mais viajante do disco, "Na Contra Mão" (o teclado nos remete a algo de Jethro Tull), com os backing vocals característicos da banda, e "Real Loucura" (muita referência a jazz pela levada da bateria e a participação de sax - cortesia do músico rio-pretense Victor Hugo - na parte final da música) com sua letra carregada de psicodelismo.

"Sem Direção" abre o disco e cativa pelo refrão que gruda na mente. "Pensar em Você (Tudo é Saudade)" tem um doce apelo radiofônico (se é que pudemos usar esse termo hoje em dia, em se tratando de rock).  "Dia de Domingo" é cantada por Cristhiano (guitar), sendo a mais enérgica do disco e onde o teclado conversa intensamente com baixo e guitarra e a batera mais rápida. "O Segundo" (a faixa), conta com uma breve participação canina ao fundo (alguns latidos) e  intercala momentos suaves com quebradas melódicas no refrão, lembrando muito o trabalho do primeiro disco.

"Meu Amigo George" traz boas referências de Beatles, principalmente nas influências orientais de Harrison e tem um clima intenso por conta do teclado e boas doses também de psicodelia na letra. "Vícios Sem Fim" é a faixa que mais se aproxima dos padrões da MPB, levada pela cadência do baixo e dedilhados da guitarra. Soa como a mais introspectiva do álbum.

Enfim, A Estação da Luz acertou novamente.  Não sei até onde Renata Ortunho (vocal), Cristhiano Carvalho (guitarras),  Alberto Sabella (teclado), Vagner Siqueira (baixo) e Junior Muelas (bateria) podem levar a banda em termos de exposição e conquistas mercadológicas pelo Brasil afora, mas uma coisa é certa, talento, bom gosto nas composições e textura visual não lhe faltam para isso.


Um papo com Junior Muelas

Ready to Rock - Após 5 anos, eis que é lançado o segundo álbum. O que mudou pra banda nesse intervalo?
Junior Muelas - Nesses 5 anos acredito que a banda tenha adquirido um pouco mais de experiência, esse processo de amadurecimento como banda tem acontecido ano após ano desde o início em 2005 e isso com certeza reflete positivamente de um disco para o outro.

RR - Percebi uma clara evolução na sonoridade final do disco. Comparando à produção do primeiro disco, como foi fazer "O Segundo"?
JM - Algumas músicas do disco já estávamos tocando nos shows há algum tempo, isso facilitou um pouco na produção por já sabermos que rumo o disco tomaria, as gravações de nossos discos são sempre tranquilas e ficamos muito à vontade em relação a timbres, arranjos, ideias. Acho que no final isso acaba definindo a sonoridade do disco e da banda.

RR - Eu percebo a banda procurando se aventurar por outros braços musicais, tentando variar mais em termos de arranjos. Teve essa intenção?
JM - Isso acaba acontecendo, mais flui naturalmente. Somos influenciados sonoramente a todo momento isso acaba refletindo nos arranjos e na sonoridade das músicas.

RR - A veia setentista clássica ainda se faz presente. Parece ser a marca da banda. Mas não há uma prisão. Dá a impressão que vocês querem se expressar sobre essa base vanguardista. Como foi o processo de composição?
JM - Nossas maiores influências são das décadas de 60/70 e gostamos da sonoridade dessa época que acaba sendo uma forte característica da banda. Não temos uma linha que seguimos nas composições, as vezes temos primeiro a música, depois fazemos a letra ou vice e versa. Sempre que alguém chega com uma ideia, desenvolvemos a música e letras juntos ou já chega com a música pronta e tocamos colocando a pegada de cada um, depende....nunca seguimos uma formula.

RR - Faixas como "Real Loucura" flertam claramente com jazz. Como foi a experiência?
JM - Eu diria mais pro progressivo do que pro Jazz. Desde o primeiro disco já flertamos com esse estilo que está muito presente em nossas influências.

RR - Como ocorreu a participação "canina" em "O Segundo"?
JM- A ideia de gravar na madrugada os cachorros da vizinhança e colocar na intro foi do Alberto Sabella, que acabou criou uma atmosfera sonora incrível.

RR - A faixa "Meu Amigo George" é uma homenagem à Harrison? Tem muito de Beatles nela.
JM - É uma homenagem com certeza. Tem muito de Beatles e George Harrison solo também.

RR - Quando o disco sairá em mídia física?
JM - Ainda não temos uma data prevista.

RR -  Num universo musical do Brasil, onde não existe mercado para quem quer apostar em rock autoral, principalmente de uma escola clássica, qual a visão de vocês em termos de aceitação da música do Estação?
JM - A aceitação do público é muito boa , temos fãs por todo país. Existe uma cena independente que não tem o apoio da grande mídia, mas sobrevive mesmo assim graças a internet que ajuda a espalhar seu som pelo mundo todo muito rapidamente que é um meio de divulgação muito eficaz. E existem algumas Rádios(AM/FM) que dão uma força para os artistas independentes.



RR -  Aqui em Rio Preto, temos o circuito tradicional de covers em bares e espaços específicos. Como vocês sentem a aceitação do Estação, enquanto banda autoral nessa cena?
JM - Sempre transitamos por esse circuito com um ótima aceitação, em Rio Preto atualmente tem uma ótima cena autoral, tem muitas bandas/músicos/compositores sensacionais a aos poucos o apoio e a cena vem crescendo.

RR - Como você sentiu a aceitação do primeiro trabalho, mesmo em termos nacionais, e como será a expectativa para este segundo?
JM - Tivemos ótima aceitação com o nosso primeiro trabalho, nos rendeu vários shows pelo país e ótimas críticas nas mídias e acredito que agora com “O Segundo” será muito legal também e hoje a internet tem várias ferramentas que ainda não rolava em 2012 quando lançamos nosso primeiro disco e que ajuda demais na divulgação do trabalho.

RR - Sua música é algo que a cena do rock brasileiro tem aderência. Até onde você acredita que o Estação pode chegar?
JM - Não saberia te dizer, vamos continuar lançando nossos discos e vamos deixar rolar...(risos)

RR - Quais os planos do banda para os próximos meses?
JM - Nos próximos meses faremos os shows de divulgação do disco e logo vamos começar a trabalhar nas músicas do próximo disco.


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domingo, 23 de abril de 2017

M.U.T.E. lança novo clipe, "Quimera Digital"


Quando se formou em 2009, a banda M.U.T.E., de São José do Rio Preto/SP, não imaginaria que, ao longo dos próximos oito anos, sua produção autoral fosse tão intensa. Na época, o grupo tinha como objetivo fazer covers do Raimundos. Hoje, com dois álbuns gravados, ("M.U.T.E." - 2010 e "Brutalmente Vivo" - 2013), e vários videoclipes na bagagem, sua carreira segue firme e forte. O trabalho mais recente foi a divulgação do clipe de "Quimera Digital", uma ótima produção de áudio e vídeo. A banda, que atualmente conta com Marcelo Rocha (vocal/guitarra), Sidnei (guitarra e backing vocals Henrique Waiteman (baixo) e Fábio Moura (bateria), segue sua rotina de ensaios e shows, em diversos formatos, seja em tributos, seja em covers, mas sempre inserindo suas músicas no set. Ready to Rock conversou com o baixista Henrique Waiteman, que aborda os mais recentes acontecimentos sobre a trajetória do grupo.

Ready to Rock) O M.U.T.E. está na ativa desde 2009. Nesse tempo, entre shows tributos e outros formatos, vocês lançaram muito material autoral. Você acredita que o rock autoral desperta o interesse do público em Rio Preto?

Henrique WaitemanEssa vertente ainda se mantém mesmo que timidamente. Existe o interesse do público, mas ele é um pouco reprimido. Nossa região é predominantemente voltada à cultura sertaneja e estamos geograficamente distantes das grandes capitais onde a cultura rock ‘n’ roll ainda é bem ativa, existem mais casas voltadas ao gênero e com uma demanda bem maior. São poucas as casas voltadas ao rock em nossa cidade e essas casas são “negócios”, eles precisam de clientes para que possam se manter e não se consegue clientes apenas com o rock autoral, infelizmente. Eles não estão errados, como dissemos anteriormente, é um negócio, porém as que mais sentem na pele são as bandas de rock que são obrigadas a ter em seu repertório mais de 90% de cover, deixando na grande maioria das vezes o som autoral de lado. Em nossos shows sempre procuramos manter o equilíbrio entre cover e som autoral e o retorno do público tem sido sempre positivo.




RR) O estilo que a banda faz mistura elementos de heavy metal e do hardcore da escola NY. Como tem sido a aceitação da banda nesse segmento?
HW
- Nossas influências em sua grande maioria sempre foram o heavy e hardcore. Claro que nossa fonte é bem mais ampla que isso, mas o que predomina são essas duas e essa mistura se torna muito marcante em nosso som. Vivemos em uma época em que as bandas ou são extremamente pesadas ou extremamente “fofinhas”. Estamos no meio termo. Nosso som tem o peso que achamos coerente e que gostamos. Ao mesmo tempo nossas letras remetem aos acontecimentos atuais e sempre dando aquele toque de consciência nas pessoas. Muita gente torce o nariz quando se junta o rock pesado com letras em português. Ainda assim, essa junção sempre nos trouxe um ótimo retorno, acreditamos no nosso trabalho e o reconhecimento vem aos poucos. E percebemos isso a cada novo show e com públicos diferentes, essa percepção se torna mais nítida quando participamos de eventos com outras bandas. Muitas vezes essas bandas são excelentes musicalmente falando, mas deixam a desejar quanto à presença de palco e interação com o público. Isso se transforma em shows mornos e por vezes até monótonos. Trabalhamos para tentar surpreender, acreditamos que um show não seja apenas executar as músicas perfeitamente. Claro, isso é importantíssimo, mas existem mais fatores que diferem bandas e shows. Nossa premissa é sempre, presença de palco, interação com o público, deixar a galera realmente à vontade. Recentemente em um dos últimos shows no Two Tone em Rio Preto (Pub de Ronaldo Pobreza, vocal e guitarra da lendária banda punk Grinders) um casal comentou: “Nunca ter curtido tanto uma noite de rock ’n’ roll”. Esse feedback pra gente é sensacional. Isso sem sombra de dúvida faz toda a diferença.

RR) Após lançar discos como "M.U.T.E." (2010), "Brutalmente Vivo" (2013) e alguns vídeos, a banda lançou recentemente um videoclipe muito bem feito para "Quimera Digital". Como foi a produção dele e qual o conceito por traz de "Quimera Digital"?
HW -
Nossas composições em sua grande maioria são de temas contemporâneos e quase que naturalmente o roteiro para os clipes acabam caminhando junto com elas. Fazer um clipe demanda tempo e verba, por sermos uma banda independente não dispomos de nenhum dos dois, então trabalhamos com parcerias, seja com locação ou com a produção em si. Temos uma ótima parceria de longa data com o diretor Kelvin Ambrósio e dela nasceu nosso primeiro clipe oficial “Brutalmente Vivo” e agora “Quimera Digital”. O conceito de "Quimera Digital" é uma metáfora sobre o vazio existencial no mundo virtual. A letra é sobre a dependência da internet na vida das pessoas e da falsa imagem de mundo perfeito, bonito e ideal que ela pode passar. O clipe retrata o dia a dia de uma pessoa viciada em internet que vive um mundo paralelo nas redes sociais com suas fotos aparentemente “bem”, mas na verdade, ela é uma pessoa atormentada, desequilibrada, doentia e psicótica vivendo sua utopia.



RR) Como tem sido a repercussão do novo clipe nas redes sociais?
HW -
Passamos de 10k no Youtube em uma semana, realmente não esperávamos esse número tão rápido e ele continua aumentando. A repercussão tem sido extremamente positiva, seja pela música em si e também pelo próprio clipe. O legal dessas redes e da tecnologia de um modo geral, é que podemos mostrar nosso trabalho em praticamente todos os lugares, seja no Brasil ou fora dele. Inclusive, curiosamente na mesma semana de lançamento do clipe "Quimera Digital", tivemos um trecho de uma música do nosso segundo CD, tocado em uma matéria no Fantástico da Rede Globo. Num passado não muito distante sem essas redes e tecnologia, isso seria praticamente impossível. É extremamente revigorante ver seu trabalho ser compreendido e bem aceito pelas pessoas. Estamos muito felizes de modo geral e na expectativa que isso se multiplique cada vez mais.

RR) Como funciona o processo de composição dentro da banda?
HW -
Compomos quase que totalmente por meio da internet e redes sociais, mesmo porque, o Marcelo (vocal/guitarra base) está um pouco longe (morando em Vitória/ES) e nossos ensaios com ele são mais espaçados. Com essa distância, estamos sempre trocando ideias em nosso grupo, seja no Facebook ou WhatsApp, mandando ideias de sons e letras e sempre debatendo e ajustando as composições. É sempre colaborativo entre todos. Às vezes um manda uma ideia, o outro dá um “pitaco” e assim tudo vai tomando forma. O Marcelão sempre manda ótimas ideias de “riffs” e arranjos e a gente desenvolve todo o resto, cada um com a sua forma de tocar. Na questão de letras, muitas vezes o Fábio e o Henrique mostram as ideias ou até mesmo passam elas praticamente prontas, sempre debatemos, lapidamos e ajustamos para encaixar e ficar de acordo com a música. Os ensaios rolam no estúdio do Sidnei (back/guitarra solo) e ao menos uma vez por semana a gente se encontra por lá pra ensaiar a parte instrumental e quando o Marcelo está em Rio Preto conseguimos juntar todos, ai sim, passamos as músicas por completo. Engraçado como a internet tem nos acompanhado desde o início, nos conhecemos por meio dela e grande parte do nosso trabalho ainda continua sendo por intermédio dela.



RR) A temática lírica do M.U.T.E. se baseia em vivência social/política. Essa é uma tendência natural da banda?
HW -
Sim, sem sombra de dúvida. Não foi uma decisão da banda, no início não tínhamos essa pretensão, mas aos poucos fomos percebendo essa “revolta” em nossas letras, foi natural. As opiniões dentro da banda se baseiam sempre nisso, sem estereótipos, porém dentro da realidade. Tentamos reverter essa visão em temas atuais e sempre passando uma mensagem positiva sobre os fatos. Isso acabou se tornando uma marca forte da banda, letras fortes e ao mesmo tempo mostrando o lado positivo dentro do caos social e político em que vivemos. Gostamos de colocar o dedo na ferida, contestar e dar tapas na cara, sim. O verdadeiro sentido do rock está aí. Se não for assim, não é rock.

RR) Após alguns anos, o guitarrista vocalista Marcelo voltou ao grupo. O que mudou com a saída dele e com a volta?
HW - Na verdade foram duas baixas e uma mudança bem grande, afinal perdemos metade da banda. Praticamente na mesma época saíram o Melão (vocal) e o Marcelo (back/guitarra). Foi uma época difícil, não há como negar. A banda praticamente acabou e só ficaram o Henrique (contra baixo) e o Fábio (bateria). Lembro que sentamos em um bar e olhamos um pro outro e dissemos... "E ai, o que vamos fazer”. Debatemos muito a respeito, porém nunca passou pela cabeça em terminar a banda. Tivemos que recomeçar, tínhamos um nome, uma história, então decidimos que ali seria um recomeço, não tinha como ser diferente. Então, começamos uma procura por vocalista e guitarrista. Não queríamos simplesmente um novo vocal e um novo guitarrista. Antes de tudo, queríamos parceiros, amigos, assim como éramos na primeira formação. Acreditamos que o principal em uma banda, não é ter músicos virtuosos, mesmo porque, não somos. Acreditamos na amizade, parceria sentir-se bem com as pessoas envolvidas, ter uma “vibe” positiva, o resto é consequência. Tivemos a felicidade de encontrar o Sidnei (back/guitarra solo), que além de ser um exímio guitarrista, tem todas as qualidades que queríamos. Um cara sensacional e que se tornou um grande amigo e é como se realmente estivesse na banda desde o princípio. Por indicação do Sidnei, o Caio (vocal) entrou na banda, passamos quase dois anos com essa formação, até que o Caio precisou sair por conta de projetos pessoais. Sempre mantivemos contato com o Marcelo e ele já havia sinalizado interesse em voltar para a banda (lugar de onde nunca deveria ter saído). Claro que aproveitamos para convidá-lo para retornar à banda e ele topou de primeira. Só que dessa vez assumindo os vocais e guitarra base. A banda evoluiu muito com o passar desses anos com a entrada do Sidnei e mais recentemente com o retorno do Marcelo, a banda voltou a ter sua identidade própria novamente. Isso trouxe um vigor muito grande pra banda, estamos em uma fase realmente produtiva e bem felizes com essa formação.

RR) Como você sente a cena de shows de Rio Preto e região? Existe espaço para as bandas mais pesadas?
HW -
Apesar de ter muitas casas de shows, o espaço ao rock pesado é bem restrito, principalmente o som autoral. Essa é uma luta constante e de todos, ter novos lugares para tocar, como festivais de som autoral, valorizar a cena. Mencionando festivais, existe um em nossa cidade (Planeta Rock) que cresceu muito e esperamos que continue dando oportunidade para bandas da cidade.


RR) Qual a perspectiva de levar o trabalho do M.U.T.E. para outros lugares do país?
HW -
Isso já está em pauta, estamos estudando as propostas e tentando viabilizar a logística de levar nosso show para qualquer lugar do Brasil.

RR) Há planos para lançar um novo full-lenght em breve?
HW -
No momento não é o foco, pensamos em cada vez mais aderir aos singles. Queremos agora é trabalhar uma música de cada vez. Mas também podemos lançar algum disco pelo caminho. Porque não?

RR) Fique à vontade para qualquer outra observação ou recados.
HW - O rock ‘n’ roll é algo que está em nosso DNA, assim como milhares de outras bandas, a gente rala e passa pelos mais diversos obstáculos apenas para encontrar os velhos amigos que deixamos em casa cidade por onde passamos e pelo prazer de estar na estrada e em cima do palco, entregando sempre o melhor que pudermos ao nosso público. Continuamos trabalhando e produzindo nosso som com o mesmo empenho que sempre tivemos, levando nossos ideais em mensagens positivas da melhor maneira possível. Nada paga o prazer que temos quando você, sua mina, seus amigos, chegam pra gente no final do show com aquele olhar de felicidade depois daquela “vibe” incrível e diz: Foi do caralho! Pois sabemos que por um período de tempo nós conseguimos fazer você esquecer-se de todos os problemas e curtir a vida de verdade, pois é pra isso que ela foi feita! E é por isso que continuamos tocando nosso velho e querido Rock ‘n’ roll.
A dica pra galera é: Vá ao show das bandas da sua cidade, dê uma chance! Eles ralam muito apenas pelo prazer em fazer um show pra você! Todas as bandas famosas e “fodásticas” que você curte, também começaram assim, bem pequenas e sem estrutura. Valorize a cena! Viva o rock ‘n’ roll.

Contatos: https://www.facebook.com/mutehardcore/