domingo, 23 de abril de 2017

M.U.T.E. lança novo clipe, "Quimera Digital"


Quando se formou em 2009, a banda M.U.T.E., de São José do Rio Preto/SP, não imaginaria que, ao longo dos próximos oito anos, sua produção autoral fosse tão intensa. Na época, o grupo tinha como objetivo fazer covers do Raimundos. Hoje, com dois álbuns gravados, ("M.U.T.E." - 2010 e "Brutalmente Vivo" - 2013), e vários videoclipes na bagagem, sua carreira segue firme e forte. O trabalho mais recente foi a divulgação do clipe de "Quimera Digital", uma ótima produção de áudio e vídeo. A banda, que atualmente conta com Marcelo Rocha (vocal/guitarra), Sidnei (guitarra e backing vocals Henrique Waiteman (baixo) e Fábio Moura (bateria), segue sua rotina de ensaios e shows, em diversos formatos, seja em tributos, seja em covers, mas sempre inserindo suas músicas no set. Ready to Rock conversou com o baixista Henrique Waiteman, que aborda os mais recentes acontecimentos sobre a trajetória do grupo.

Ready to Rock) O M.U.T.E. está na ativa desde 2009. Nesse tempo, entre shows tributos e outros formatos, vocês lançaram muito material autoral. Você acredita que o rock autoral desperta o interesse do público em Rio Preto?

Henrique WaitemanEssa vertente ainda se mantém mesmo que timidamente. Existe o interesse do público, mas ele é um pouco reprimido. Nossa região é predominantemente voltada à cultura sertaneja e estamos geograficamente distantes das grandes capitais onde a cultura rock ‘n’ roll ainda é bem ativa, existem mais casas voltadas ao gênero e com uma demanda bem maior. São poucas as casas voltadas ao rock em nossa cidade e essas casas são “negócios”, eles precisam de clientes para que possam se manter e não se consegue clientes apenas com o rock autoral, infelizmente. Eles não estão errados, como dissemos anteriormente, é um negócio, porém as que mais sentem na pele são as bandas de rock que são obrigadas a ter em seu repertório mais de 90% de cover, deixando na grande maioria das vezes o som autoral de lado. Em nossos shows sempre procuramos manter o equilíbrio entre cover e som autoral e o retorno do público tem sido sempre positivo.




RR) O estilo que a banda faz mistura elementos de heavy metal e do hardcore da escola NY. Como tem sido a aceitação da banda nesse segmento?
HW
- Nossas influências em sua grande maioria sempre foram o heavy e hardcore. Claro que nossa fonte é bem mais ampla que isso, mas o que predomina são essas duas e essa mistura se torna muito marcante em nosso som. Vivemos em uma época em que as bandas ou são extremamente pesadas ou extremamente “fofinhas”. Estamos no meio termo. Nosso som tem o peso que achamos coerente e que gostamos. Ao mesmo tempo nossas letras remetem aos acontecimentos atuais e sempre dando aquele toque de consciência nas pessoas. Muita gente torce o nariz quando se junta o rock pesado com letras em português. Ainda assim, essa junção sempre nos trouxe um ótimo retorno, acreditamos no nosso trabalho e o reconhecimento vem aos poucos. E percebemos isso a cada novo show e com públicos diferentes, essa percepção se torna mais nítida quando participamos de eventos com outras bandas. Muitas vezes essas bandas são excelentes musicalmente falando, mas deixam a desejar quanto à presença de palco e interação com o público. Isso se transforma em shows mornos e por vezes até monótonos. Trabalhamos para tentar surpreender, acreditamos que um show não seja apenas executar as músicas perfeitamente. Claro, isso é importantíssimo, mas existem mais fatores que diferem bandas e shows. Nossa premissa é sempre, presença de palco, interação com o público, deixar a galera realmente à vontade. Recentemente em um dos últimos shows no Two Tone em Rio Preto (Pub de Ronaldo Pobreza, vocal e guitarra da lendária banda punk Grinders) um casal comentou: “Nunca ter curtido tanto uma noite de rock ’n’ roll”. Esse feedback pra gente é sensacional. Isso sem sombra de dúvida faz toda a diferença.

RR) Após lançar discos como "M.U.T.E." (2010), "Brutalmente Vivo" (2013) e alguns vídeos, a banda lançou recentemente um videoclipe muito bem feito para "Quimera Digital". Como foi a produção dele e qual o conceito por traz de "Quimera Digital"?
HW -
Nossas composições em sua grande maioria são de temas contemporâneos e quase que naturalmente o roteiro para os clipes acabam caminhando junto com elas. Fazer um clipe demanda tempo e verba, por sermos uma banda independente não dispomos de nenhum dos dois, então trabalhamos com parcerias, seja com locação ou com a produção em si. Temos uma ótima parceria de longa data com o diretor Kelvin Ambrósio e dela nasceu nosso primeiro clipe oficial “Brutalmente Vivo” e agora “Quimera Digital”. O conceito de "Quimera Digital" é uma metáfora sobre o vazio existencial no mundo virtual. A letra é sobre a dependência da internet na vida das pessoas e da falsa imagem de mundo perfeito, bonito e ideal que ela pode passar. O clipe retrata o dia a dia de uma pessoa viciada em internet que vive um mundo paralelo nas redes sociais com suas fotos aparentemente “bem”, mas na verdade, ela é uma pessoa atormentada, desequilibrada, doentia e psicótica vivendo sua utopia.



RR) Como tem sido a repercussão do novo clipe nas redes sociais?
HW -
Passamos de 10k no Youtube em uma semana, realmente não esperávamos esse número tão rápido e ele continua aumentando. A repercussão tem sido extremamente positiva, seja pela música em si e também pelo próprio clipe. O legal dessas redes e da tecnologia de um modo geral, é que podemos mostrar nosso trabalho em praticamente todos os lugares, seja no Brasil ou fora dele. Inclusive, curiosamente na mesma semana de lançamento do clipe "Quimera Digital", tivemos um trecho de uma música do nosso segundo CD, tocado em uma matéria no Fantástico da Rede Globo. Num passado não muito distante sem essas redes e tecnologia, isso seria praticamente impossível. É extremamente revigorante ver seu trabalho ser compreendido e bem aceito pelas pessoas. Estamos muito felizes de modo geral e na expectativa que isso se multiplique cada vez mais.

RR) Como funciona o processo de composição dentro da banda?
HW -
Compomos quase que totalmente por meio da internet e redes sociais, mesmo porque, o Marcelo (vocal/guitarra base) está um pouco longe (morando em Vitória/ES) e nossos ensaios com ele são mais espaçados. Com essa distância, estamos sempre trocando ideias em nosso grupo, seja no Facebook ou WhatsApp, mandando ideias de sons e letras e sempre debatendo e ajustando as composições. É sempre colaborativo entre todos. Às vezes um manda uma ideia, o outro dá um “pitaco” e assim tudo vai tomando forma. O Marcelão sempre manda ótimas ideias de “riffs” e arranjos e a gente desenvolve todo o resto, cada um com a sua forma de tocar. Na questão de letras, muitas vezes o Fábio e o Henrique mostram as ideias ou até mesmo passam elas praticamente prontas, sempre debatemos, lapidamos e ajustamos para encaixar e ficar de acordo com a música. Os ensaios rolam no estúdio do Sidnei (back/guitarra solo) e ao menos uma vez por semana a gente se encontra por lá pra ensaiar a parte instrumental e quando o Marcelo está em Rio Preto conseguimos juntar todos, ai sim, passamos as músicas por completo. Engraçado como a internet tem nos acompanhado desde o início, nos conhecemos por meio dela e grande parte do nosso trabalho ainda continua sendo por intermédio dela.



RR) A temática lírica do M.U.T.E. se baseia em vivência social/política. Essa é uma tendência natural da banda?
HW -
Sim, sem sombra de dúvida. Não foi uma decisão da banda, no início não tínhamos essa pretensão, mas aos poucos fomos percebendo essa “revolta” em nossas letras, foi natural. As opiniões dentro da banda se baseiam sempre nisso, sem estereótipos, porém dentro da realidade. Tentamos reverter essa visão em temas atuais e sempre passando uma mensagem positiva sobre os fatos. Isso acabou se tornando uma marca forte da banda, letras fortes e ao mesmo tempo mostrando o lado positivo dentro do caos social e político em que vivemos. Gostamos de colocar o dedo na ferida, contestar e dar tapas na cara, sim. O verdadeiro sentido do rock está aí. Se não for assim, não é rock.

RR) Após alguns anos, o guitarrista vocalista Marcelo voltou ao grupo. O que mudou com a saída dele e com a volta?
HW - Na verdade foram duas baixas e uma mudança bem grande, afinal perdemos metade da banda. Praticamente na mesma época saíram o Melão (vocal) e o Marcelo (back/guitarra). Foi uma época difícil, não há como negar. A banda praticamente acabou e só ficaram o Henrique (contra baixo) e o Fábio (bateria). Lembro que sentamos em um bar e olhamos um pro outro e dissemos... "E ai, o que vamos fazer”. Debatemos muito a respeito, porém nunca passou pela cabeça em terminar a banda. Tivemos que recomeçar, tínhamos um nome, uma história, então decidimos que ali seria um recomeço, não tinha como ser diferente. Então, começamos uma procura por vocalista e guitarrista. Não queríamos simplesmente um novo vocal e um novo guitarrista. Antes de tudo, queríamos parceiros, amigos, assim como éramos na primeira formação. Acreditamos que o principal em uma banda, não é ter músicos virtuosos, mesmo porque, não somos. Acreditamos na amizade, parceria sentir-se bem com as pessoas envolvidas, ter uma “vibe” positiva, o resto é consequência. Tivemos a felicidade de encontrar o Sidnei (back/guitarra solo), que além de ser um exímio guitarrista, tem todas as qualidades que queríamos. Um cara sensacional e que se tornou um grande amigo e é como se realmente estivesse na banda desde o princípio. Por indicação do Sidnei, o Caio (vocal) entrou na banda, passamos quase dois anos com essa formação, até que o Caio precisou sair por conta de projetos pessoais. Sempre mantivemos contato com o Marcelo e ele já havia sinalizado interesse em voltar para a banda (lugar de onde nunca deveria ter saído). Claro que aproveitamos para convidá-lo para retornar à banda e ele topou de primeira. Só que dessa vez assumindo os vocais e guitarra base. A banda evoluiu muito com o passar desses anos com a entrada do Sidnei e mais recentemente com o retorno do Marcelo, a banda voltou a ter sua identidade própria novamente. Isso trouxe um vigor muito grande pra banda, estamos em uma fase realmente produtiva e bem felizes com essa formação.

RR) Como você sente a cena de shows de Rio Preto e região? Existe espaço para as bandas mais pesadas?
HW -
Apesar de ter muitas casas de shows, o espaço ao rock pesado é bem restrito, principalmente o som autoral. Essa é uma luta constante e de todos, ter novos lugares para tocar, como festivais de som autoral, valorizar a cena. Mencionando festivais, existe um em nossa cidade (Planeta Rock) que cresceu muito e esperamos que continue dando oportunidade para bandas da cidade.


RR) Qual a perspectiva de levar o trabalho do M.U.T.E. para outros lugares do país?
HW -
Isso já está em pauta, estamos estudando as propostas e tentando viabilizar a logística de levar nosso show para qualquer lugar do Brasil.

RR) Há planos para lançar um novo full-lenght em breve?
HW -
No momento não é o foco, pensamos em cada vez mais aderir aos singles. Queremos agora é trabalhar uma música de cada vez. Mas também podemos lançar algum disco pelo caminho. Porque não?

RR) Fique à vontade para qualquer outra observação ou recados.
HW - O rock ‘n’ roll é algo que está em nosso DNA, assim como milhares de outras bandas, a gente rala e passa pelos mais diversos obstáculos apenas para encontrar os velhos amigos que deixamos em casa cidade por onde passamos e pelo prazer de estar na estrada e em cima do palco, entregando sempre o melhor que pudermos ao nosso público. Continuamos trabalhando e produzindo nosso som com o mesmo empenho que sempre tivemos, levando nossos ideais em mensagens positivas da melhor maneira possível. Nada paga o prazer que temos quando você, sua mina, seus amigos, chegam pra gente no final do show com aquele olhar de felicidade depois daquela “vibe” incrível e diz: Foi do caralho! Pois sabemos que por um período de tempo nós conseguimos fazer você esquecer-se de todos os problemas e curtir a vida de verdade, pois é pra isso que ela foi feita! E é por isso que continuamos tocando nosso velho e querido Rock ‘n’ roll.
A dica pra galera é: Vá ao show das bandas da sua cidade, dê uma chance! Eles ralam muito apenas pelo prazer em fazer um show pra você! Todas as bandas famosas e “fodásticas” que você curte, também começaram assim, bem pequenas e sem estrutura. Valorize a cena! Viva o rock ‘n’ roll.

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