segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Psicodella: estréia em disco autoral com muita energia


Mesmo em tempos em que comprar CDs já não mais o hábito mais praticado por fãs de rock, o lançamento de um álbum ainda se configura como meta principal das bandas que se dedicam a produzir música autoral. E, quando se trata de um primeiro full length, essa meta é sempre cercada de muitas expectativas. Afinal, qual músico não tem uma overdose de curiosidade pra saber o que ou ouvintes estão achando de seu trabalho. E imagino que essa realidade se aplique à banda Psicodella. Nascida em São José do Rio Preto, ela se chamava anteriormente Torn, e circulava por diversas cidades da região, atuando com covers de nomes como System of a Down, AC/DC, além de artistas nacionais como Pitty e Raimundos.
Até que em 2016, vieram mudanças profundas na carreira do grupo, que hoje tem Anie Doná (vocal), Walter Poletti (guitarra), Daniel Borsato (bateria) e Hailon Vançan (baixo). Primeiro mudaram de nome, passando a chamar-se Psicodella. E gravaram no estúdio Busic (em Sampa, dos irmãos Andria e Ivan Busic, ex-Dr.Sin) seu primeiro disco, com 9 temas puramente autorais. A partir de então a banda passou a mesclar seu repertório, dividindo-o entre os covers e suas próprias criações.


Psicodella, o disco

O que chama a atenção logo de cara é a qualidade da produção. Efeitos de guitarra e baixo muito bem equilibrados, bateria concisa e amigável com os arranjos e os vocais de Anie, soando com ótima dose de agressividade. Por ter uma mulher à frente dos microfones, muita gente pode ter um conceito prévio de associar o grupo a nomes como Pitty, Pato Fu ou Toyshop. Ledo engano, amigo leitor. O quarteto aqui pratica um hard rock muito bem arranjado, com fortes referências a classic rock, e executado de maneira bem visceral. Os solos de guitarra curtos e precisos. As músicas têm peso e acessibilidade, convivendo simultaneamente. As letras versam sobre existencialismo, condições sociais/amorosas e odes ao estilo de vida rock and roll, sem soarem superficiais ou intelectualóides demais.
Destaques? O álbum todo é nivelado por cima em termos de entusiasmo sonoro. Nada é meia boca. Mas vamos a alguns. O disco abre com “#nuncaserão”, o qual poderíamos classificar com o hit da banda. Levada com muito groove (característica da maioria das músicas, ouça "Deixa o rock rolar") e um refrão grudento. "Só guardo o que é bom" e "Até logo" são as mais cadenciadas, a primeira com seu início no esquema balada (chimbau e dedilhado), para ganhar peso posteriormente, a segunda tem um bom apelo radiofônico. Seria forte candidata a rolar nas FMs por aí, não fossem a$ influência$ que elas tem das gravadoras. "Quem vai nos ouvir" começa com a força visceral do vocal (cujo refrão tem vozes dobradas) e tem como base a levada de rock clássico nos fraseados de guitarra (e um destacado solo de guita). Outro destaque latente do trabalho é "Way to Go", licks e base se intercalando (lembranças melódicas de AC/DC são fáceis de se identificar), cadência precisa da batera e uma aura prazerosa aura rock and roll nas linhas vocais. E o disco fecha com "Te salvar", talvez a mais densa do disco, levada por paletadas nervosas da guitarra e um conjunto de backings que dão um sabor especial às refrães.

Enfim, um disco objetivo e agradável. Não se surpreenda caso se ouça cantarolando várias partes das músicas deste disco. Afinal, ele tem uma saudável aura de pegajosidade. Até onde o álbum pode levar a banda em termos de carreira não sabemos, mas que é um início fonográfico vibrante, com certeza é. Way to go.



Um papo com Walter Poletti

Ready to Rock - Primeiramente, uma questão óbvia: depois de muitos anos como Torn, por que a banda mudou para Psicodella, e qual o motivo dessa escolha?
Walter Poletti - Sempre pensamos em desenvolver um trabalho autoral, ainda antes do retorno da banda Torn, em 2011. Entre os anos de 2008 e 2010, com a extinta Don Crookane, gravamos um EP com três composições, sendo duas lançadas numa compilação tributo ao AC/DC pelo selo Versailles Records, situado em Nashville/EUA (http://www.allmusic.com/album/rock-roll-train-a-millennium-tribute-to-ac-dc-mw0002050820). Até que, no início de 2016, quando decidimos registrar as novas composições e o nome da banda, alguns empecilhos com a “marca” nos obrigaram a mudar. O nome Psicodella foi o que, dentre tantas opções, soou melhor a nossos ouvidos, talvez por lembrar psicodelia, rock and roll.

RR - A banda atingiu a tão sonhada meta de um CD autoral. Como é a sensação de atingir essa meta?
WP - Esse era um dos principais objetivos da Psicodella: entrar em estúdio e trabalhar suas próprias composições é uma sensação única; é indescritível ver e ouvir o produto final.

RR - O disco é muito bem produzido, em se tratando de composições, arranjos, qualidade sonora. Até que ponto o estúdio dos Busic ajudou nesse sentido?
WP - Conhecemos os irmãos Busic quando abrimos shows da Dr. Sin, em 2008 (no Toma-Rock, São José do Rio Preto/SP) e em 2009 (no Under Rock Bar, Bauru/SP). O respeito mútuo foi instantâneo e, desde então, mantivemos contato. Quando decidimos gravar com um produtor renomado, Andria Busic foi o principal nome: ele tem mais de 25 anos de carreira, experiência internacional, foi eleito várias vezes o melhor baixista do Brasil, dividiu palco com artistas como Ian Gillan, Nirvana, Black Sabbath, KISS, Bon Jovi, AC/DC, Bruce Dickinson, Scorpions, Dio, Whitesnake e Aerosmith. Seu conhecimento musical, na teoria e na prática, além da estrutura disponível no Mr. Som Estúdio e o atendimento amistoso nos proporcionaram o timbre e a mixagem que tanto almejávamos.


RR - Andria fez o baixo do disco. Ele, como produtor, mudou algum detalhe nas ideias originais do álbum?
WP - Entramos em estúdio sem baixista e, surpreendentemente, Andria Busic se propôs a gravar todas as linhas, que ficaram fantásticas! Muitos arranjos, melodias e ritmos foram sugestões dele, das quais acatamos sem hesitação. Como ele já conhecia nosso estilo, pôde nos levar, musicalmente, ao ponto que queríamos.

RR - Sinto a influência de alguns nomes no seu trabalho, como por exemplo, de AC/DC em "Way to Go" (no riffs e no solo). Até que ponto as influências de vocês atuaram na concepção das músicas?
WP - Como guitarrista e principal compositor do grupo, sou fã de AC/DC – inclusive tenho os autógrafos de Angus Young & Cia. tatuados em meus braços e costas. Porém, outros artistas, principalmente do “Classic Rock”, também influenciam diretamente a banda como um todo: Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple, Iron Maiden, System of a Down.
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RR - Ao longo do disco, nos deparamos com temas mais acessíveis e diretos, como "Só Guardo o Que é Bom" ou "Até Logo". Outros já soam mais agressivos e pesados como "Te Salvar" e "Do Meu Jeito". Como funcionou o processo de composição?
WP - Não nos policiamos nem “forçamos a barra” para compor, apenas deixamos fluir nossa maneira de tocar e tudo aconteceu naturalmente – tanto os riffs, arranjos e melodias quanto as letras, onde buscamos expressar aquilo que passamos no dia-a-dia, tanto como cidadãos quanto nos relacionamentos, no trabalho, na estrada.




RR - Existe sempre a controversa discussão entre ser uma banda autoral ou de covers. Durantes muitos anos, vocês atuaram pela segunda categoria. Agora, com um álbum lançado, existe tranquilidade em misturar os dois modelos nos shows?
WP - Sempre tocamos nossos singles “#nuncaserão” (https://youtu.be/6k9TqOcN7C8), “Até logo” e “Só guardo o que é bom” nos shows; “Way to go” e “Quem vai nos ouvir” frequentemente aparecem no set list também. A resposta tem sido extremamente positiva: durante os intervalos, vendemos CDs para o público - foram aproximadamente 500 cópias em menos de 4 meses (o álbum está disponível para download em https://onerpm.com/disco/album&album_number=7565114440). Vale ressaltar que algumas rádios da região e da web (Educativa FM, Unifev, Web FM) têm executado essas canções. Quanto aos “covers”, são mais de 200 clássicos do rock internacional no repertório, além de alguns hits do rock nacional.

RR - Quais músicas funcionam melhor ao vivo?
WP - Curtimos muito estar no palco, tocar ao vivo; há muita energia em todas as faixas, gostamos delas e as tocamos da melhor maneira, mas certamente “#nuncaserão” e “Até logo” funcionam muito bem, talvez por haver uma identificação imediata do público com as letras. Entre os covers, “Highway to hell” (AC/DC), “Psycho killer” (Talking Heads), “Iron man” (Black Sabbath), “Killing in the name” (Rage Against the Machine) e “Chop Suey!” (System of a Down) são sempre certeiros.

RR - Qual a expectativa em divulgar o disco além das fronteiras de Rio Preto?
WP - Além de Rio Preto, temos um público fiel no interior de São Paulo: Fernandópolis, Jales, Votuporanga e Pereira Barreto, por exemplo, entre outras cidades, como Mirassol, São Caetano do Sul, Uchoa, Novo Horizonte, Urupês, Catanduva e até Paranaíba/MS. O objetivo agora é expandir e alcançar novos destinos.


RR - Como você avalia a cena do rock de Rio Preto, seja autoral ou cover?
WP - Positivamente! Após certa “estagnação”, a “cena” voltou a crescer e, atualmente, há muitas casas que apostam no rock em São José do Rio Preto/SP, inclusive para apresentações de música autoral.

RR - Você acredita que o fato de ter uma mulher como vocalista pode representar um ponto mais forte para que as pessoas queiram conhecer o trabalho da banda ou é indiferente?
WP - A qualidade é, sim, um diferencial. Anie Doná é excelente vocalista; sua voz e presença de palco chamam a atenção e voltam os olhares do público para a Psicodella. Muito de sua formação tem contribuição internacional: entre os anos de 2010 e 2011, Anie se apresentou e gravou com as bandas norte-americanas Bottoms Up, Brain Shakers, Cheney’s Shotgun, Down South (Atlanta/GA) e a californiana The Gunslingers (Los Angeles).

RR - Quais os próximos planos da banda?
WP -Este foi um grande ano para a Psicodella! O lançamento do álbum rendeu algumas chamadas nos principais jornais da região e abriu portas para participarmos, por exemplo, do Planeta Rock 5ª edição, evento em que dividimos palco com CPM 22 e Titãs, gigantes do rock nacional. No dia seguinte, Anie cantou com Raimundos, a convite de ninguém menos que a dupla Digão e Canisso. Poucas semanas depois, abrimos para a maior banda independente do Brasil, a Velhas Virgens. No momento, há um novo clipe em pré-produção, bem como estratégias de marketing e publicidade para a Psicodella. E a agenda de shows está cheia!.

RR - Fique à vontade para tecer qualquer outro comentário sobre o Psicodella.
WP - Primeiramente, parabenizamos Júlio Verdi pela magnífica obra “A História do Rock de Rio Preto” (que traz a Psicodella ainda como TORN, na página 788) e pelo grande trabalho em prol do rock de São José do Rio Preto/SP e região; agradecemos pelo espaço. Você, fã do blog “Ready to Rock”, ouça Psicodella, nos siga nas redes sociais e “deixe o rock rolar”!

Maiores informações sobre a banda:



terça-feira, 28 de junho de 2016

King Bird retorna mais forte que nunca com "Got Newz"


Quando lançou, em 2005, o álbum “Jaywalker”, a banda paulistana King Bird não só cravava na história do rock nacional um dos melhores discos de estreia como também perpetuaria um dos melhores trabalhos já surgidos no país. Um álbum eximiamente bem composto, variado e extremamente agradável, o disco mostrou ao público uma banda que bebia de referências do hard rock setentista, misturando uma pegada áspera com doses alucinantes de melodia, em temas empolgantes como "Underdog", "Old Jack", "Down the Crosswords" e "Mother Nature". Em 2008, veio o segundo play, "Sunshine", que manteve a pegada do primeiro, com algumas doses de modernidade na produção. Então, o esmerado vocalista João Luiz deixa a banda para se dedicar ao Casa das Máquinas. Uma aura de dúvidas pairou sobre os fãs do grupo, até que, em 2014, fora anunciado um novo vocalista Ton Cremon,  e divulgada a faixa inédita "Daybreak". Enfim, em 2016, chegou ao mundo o novo disco do grupo, "Got Newz". Em nota no seu site, Silvio Lopes (guitarrista) afirmou: "Pensamos até em intitular o disco como 'ReBird', mas achamos que o pessoal do Angra ia ficar chateado por causa do 'Rebirth'". King Bird tem hoje em suas fileiras, Silvio Lopes (guitarra), Marcelo Ladwig (bateria), Fábio Cesar (baixo) e Ton Cremon (voz).




"Got Newz"

Mudanças ocorreram? Sim, além do vocalista, o novo álbum mostra uma sonoridade mais atual, sem se desgarrar das características básicas do hard rock (nos efeitos, palhetadas e levadas). Às outroras saudáveis incursões em nomes como Rainbow e UFO convivem lado a lado com referências a um hard rock mais contemporâneo, em nomes como Mr. Big, Whitesnake e Talisman. A produção (timbragem e mixagem) conseguiu evidenciar objetivamente todos seus elementos (baixo, bateria, guitarra e voz) de forma lapidada, sem descaracterizar seu estilo de composição. A troca de vocalista, processo que costuma ser crucial no padrão sonoro de qualquer banda, se mostrou incrivelmente tranquila, no que se refere aos novos resultados. João Luiz tinha um timbre mais grave, mas as novas músicas (assim como os trabalhos anteriores) sugerem tons altos e rasgados, e nesse ponto Ton mostrou toda sua competência.

O disco todo é nivelado no topo da agradabilidade, mas vamos elencar alguns destaques. "Immortal Rider", com um riff certeiro, bem acompanhado de um marcante baixo, abre o disco, com direito a coros que antecedem refrães de impacto, na mais acepção visceral da palavra. "Break Away" vem ancorada no peso e na levada clássica da banda. "Gonna Rock You" se caracteriza por sua cadência com o baixo em destaque. Uma faixa que celebra o rock and roll, em sua veia melódica e lírica. "Daybreak" (a citada faixa da pré-divulgação) tem cara de hit do disco. Levada com pelo precisão do baixo, a faixa conta com riffs certeiros e um refrão de alto poder de contágio.

Em "The Road You Ride", Ton dá uma show à parte no tocante da interpretação e "Doomsday" mostra um lado mais metal com suas paletadas (lembra algo da "The Zoo", do Scorpions). "Smoke Signal" é mais balanceada e com uma bela variação nas linhas de bateria. O disco tem duas baladas, "Years Gone By" (naquele tradicional formato dedilhado inicial, e se incorpora com fraseados de guitarra, ganha peso e vocais calmos) e "Freeze Frame my Life" (com uma levada colada no blues e ótimos solos de guita).

E, pra finalizar com chave dourada, "Last Page" encerra o disco de forma magistral. É uma faixa clássica do hard orgânico, cadenciada, com vocais dramáticos, grandes viradas de bateria, baixão estalando na cara e recheada de solos de guitarra. O grande destaque do disco e com certeza uma das melhores músicas que o pássaro rei já concebeu.
"Got Newz" tem uma qualidade sonora no topo das produções nacionais e tem tudo para colocar a banda entre as maiores de nossa cena alternativa. Evidentemente que o cenário alternativo do rock brasileiro tem todas as dificuldades comerciais e divulgatórias que se possa imaginar, mas esse álbum tem tudo para fazer o pássaro voar tão alto onde jamais esteve.

A Ready conversou com o baixista Fábio Cesar, que dá mais detalhes riquíssimos sobre a composição e a produção do novo trabalho.

Ready to Rock - Após "Sunshine", a banda lança um novo álbum após 8 anos. Como foi a produção do disco?
Fábio Cesar - Entre os CDs "Got Newz" e "Sunshine", produzimos em 2012 o EP "Beyond The Rainbow", com a produção de Henrique Baboom Canalle,
ficamos muito satisfeitos com o resultado final deste trabalho o que nos motivou a trabalhar novamente com ele nesse novo álbum. Como investimos mais tempo na produção de "Got Newz", ficamos realmente satisfeitos com a qualidade e o resultado alcançado, um som bem mais orgânico, esperamos que agrade também ao público.

RR - "Got Newz" traz a estreia do vocalista Ton Cremon. Isso mudou algo no som do grupo?
FC - Não acho que ele tenha mudado o som do grupo e sim acrescentado.
O álbum "Got Newz" já possuía essa pegada um pouco mais hard rock desde a sua concepção. Acho que as melodias criadas pelo Ton e o seu timbre de voz encaixaram perfeitamente nas músicas, isso foi bem impressionante. O Ton é um excelente vocalista e um grande talento, a sua entrada agregou e acrescentou muito a banda.



RR - Vejo em faixas como ""Immortal Ride", "Gonna Rock You" e "Doomsday" que o som da banda apresenta uma nova roupagem, seja na timbragem, seja na forma de compor. Como você vê essa mudança?
FC - "Immortal Rider" foi composta quase que integralmente através de um riff de baixo, o que diferente em "Gonna Rock" e "Doomsday". Estas duas foram compostas a partir de riffs de guitarra. Mas de qualquer forma a criação para este álbum saiu de forma bem natural. Não tivemos a preocupação se iria soar hard/heavy, 70/80/90, etc. Cada integrante da banda vinha com uma ideia ou um riff e dai a musica ganhava a forma final.  Interessante é que a pegada dessas três musicas citadas são bem distintas, o que reforça a ideia de não ter um conceito estabelecido ou um modelo a ser seguido quanto ao estilo de musica. Quanto à mudança de timbragem, em especifico ao contrabaixo, esta mudança se deve ao fato também do instrumento utilizado nesta gravação. Eu utilizei para todas as faixas um Precision, enquanto  "Sunshine" usei um Jazz Bass. O Silvio usou novamente Les Paul e Stratocastar mas trabalhou com diferentes amplificadores e pedais em cada faixa, o que deu um sou mais característico de acordo com o clima de cada música.

RR - Já em "Break Away" e "Smoke Signals", eu vejo a veia mais orgânica e setentista da banda. Ambos os momentos convivem bem no disco, concorda?
FC - Sim, como eu disse as músicas nasceram de forma espontânea, sem a
preocupação de serem rotuladas ou ligadas a um estilo ou época do rock, uma das características da banda é esse resgate do rock dito 70 porém trazendo aos dias atuais, sem ficar preso na timbragem/linguagem ou no tipo de produção da época.

RR - Outra mudança que vejo é a adição de vocais dobrados em algumas faixas. É um recurso bem interessante. Esses arranjos foram ideias do Ton?
FC - Aí tem o dedo, no bom sentido (risos), do produtor Henrique Baboom Canalle, e como você mesmo disse ficou interessante o que nos levou a adotar em algumas musicas ou em alguns trechos específicos.

RR - A faixa "Last Page" é simplesmente fantástica. Como ela foi concebida?
FC - A ideia principal da música veio do Silvio; Ele compôs em sua Double Neck, uma viagem meio "zeppeliana" e quando ouvimos nos remeteu nesse clima meio "No Quarter", eu levei a ideia do refrão para os ensaios e junto
com o Marcelo Ladwig fechamos a musica. Outros destaques nessa música são também a bonita letra do "quinto elemento do King Bird", o Giles Beard, bem como a interpretação que o Ton colocou com sua linha de voz "chega faz arrepiar" (risos), esta musica fecha o CD com um ar mais épico.

RR - Voltando um pouco no tempo, por que o vocalista João Luiz deixou o grupo? Você atua com ele no Casa das Máquinas, correto?
FC - O João Luiz estava com outros desafios pessoais os quais precisava se dedicar e seria muito difícil ele conseguir dividir seu tempo para
dar o foco que a banda precisava, desta forma a decisão foi unânime para
ambas as partes que o melhor seria sua saída. O King Bird é
uma família, nos conhecemos há muito tempo e somos muito amigos, a decisão foi em consenso e amigável. Sim, estou com ele no Casa das maquinas desde 2010, mantemos a mesma amizade e profissionalismo de sempre, não temos nenhum problema quanto a isso.

RR - Como você vê o King Bird dentro do cenário rock and roll do país?
FC - Pois é... O cenário...(risos). Falando serio, hoje estamos num momento muito delicado, aquele cenário de antigamente com bandas unidas e público presente nos shows não tem pintado muito, quem trabalha com rock autoral sabe bem o que estou dizendo. A gente no King Bird, assim como as bandas de rock autoral nos dias de hoje, estamos tentando não deixar morrer de vez a cena. Existe muita banda boa no Brasil, mas será que o publico está de fato
valorizando estas bandas? Será que há também espaço na mídia em geral pra que as bandas autorais de rock'n'roll possam mostrar seu trabalho e seu potencial? Deixo para o leitor esta reflexão.

RR - Voltando ao disco novo, como está sendo recebido "Got Newz"?
FC -
Tivemos a informação que vem sendo muito bem recebido pelo
publico, inclusive  nestas primeiras semanas de venda, está entre
os mais vendidos em uma tradicional loja na galeria do rock, a Die Hard, que é nossa parceira desde o início. É muito gratificante receber este tipo de notícia numa época de predominante domínio do downloads. Pelas redes sociais temos visto também muitos posts e comentários de pessoas que estão curtindo o "Got Newz", isso é realmente gasolina pra nós!!

RR - A qualidade do álbum realmente surpreende. Existe a expectativa (ou algum plano em andamento) para trabalhar a música do King Bird também em outros países?
FC - Sim, como aconteceu com o "Sunshine", que foi lançado em Portugal pela Metal Soldiers Records, estamos estudando a viabilidade de lançar este trabalho também lá fora, acompanhado quem sabe ate de uma possível tour. Estamos trabalhando pra isso.

RR - O King Bird está em seu 3º álbum. Algumas bandas costumam lançar algum trabalho ao vivo após alguns trabalhos de estúdio. Existem planos para um CD/DVD?
FC - Neste primeiro momento estamos focados em divulgar o máximo o "Got Newz", mas claro que, para um futuro próximo, temos intenção de lançar este material audio visual, até para o publico conhecer também nossas músicas antigas com este novo line up. Achamos que este pode ser sim um próximo projeto da banda.

RR - Passados 13 de carreira, qual o grande momento da trajetória da banda?
FC -  Estar ainda na ativa e lançando novos álbuns. Isto nos dias de hoje pode ser considerado como um grande momento. Manter uma banda de rock em atividade diante de tanta adversidade e a conciliação com o dia a dia caótico de nossas vidas é uma vitória, sem dúvida. Claro que também não podemos esquecer as aberturas que fizemos em shows internacionais para os quais tivemos a honra de ser convidados (Uriah Heep, Joe Lynn Turner, Graham Bonnet), dividir o palco na mesma noite com seus ídolos é muito prazeroso e uma realização.

RR - Quais são suas expectativas para o futuro do King Bird?
FC - Trabalhar muito e levar o som da banda a todo lugar possível dentro e fora
do Brasil através de nossos shows, CDs, clipes e mídias digitais.


RR - Fique à vontade para deixar qualquer mensagem para nossos leitores.
FC -
Em nome da banda gostaria de agradecer a você pela entrevista e aproveito para convidar os leitores a conhecer nosso novo CD "Got Newz", que já está disponível nas plataformas digitais (Spotify, Cd Baby, iTunes, etc...), e também está à venda na nossa loja virtual (link  pra ZN STORE em  wwww.kingbird.com.br), Livraria Cultura, bem como na loja física (e virtual) da Die hard na galeria do rock, em São Paulo. Um grande abraço a todos !!


Mais informações sobre a banda em www.kingbird.com.br ou em https://www.facebook.com/KingBirdBand.

sábado, 21 de maio de 2016

Vodu: celebrando o passado e projetando o futuro


Para as gerações mais novas de consumidores de heavy metal no Brasil, talvez seja difícil compreender o paradoxo que foi a cena dos anos 1980.  Equipamentos e instrumentos precários (poucos eram os que tinham acesso aos importados), condições de palco lastimáveis, divulgação musical relegada a fitas demos e zines, mas ao mesmo tempo, havia uma aderência inacreditável daqueles primeiros fãs de heavy metal no país. Não era incomum notícias sobre shows que geravam 1,2 ou até 5 mil de expectadores. Público hoje de nomes internacionais. É nesse cenário que muitos pioneiros se atreveram a criar e a desenvolver sua arte musical dentro dos domínios do underground brasileiro. Mais de trinta anos depois, muitos deles retomaram as formações de suas bandas (alguns lançando discos, outros fazendo shows) como é o caso de nomes como Dorsal Atlântica, Taurus, MX, Centúrias, Viper, Vulcano, Chakal, dentre outros. É nessa seara que encontra o não menos histórico Vodu. Com três discos lançados, "The Final Conflict" (1986), " Seeds of Destruction" (1988) e "Endless Trip" (1993) e uma bagagem de memoráveis shows em sua carreira, a banda, que ao longo de sua trajetória praticou  um heavy-thrash com muita técnica, retomou suas atividades no final de 2015. Com a ideia de celebrar suas três décadas de existência, a banda moldou seu retorno aos palcos, que ocorreu em São Paulo em Outubro de 2015, e planeja a produção de trabalhos inéditos. O Ready to Rock conversou com André Góis, (primeiro vocalista da banda, que retorna a seu posto), André "Pomba" Cagni (baixista) e Sérgio Facci (bateria), sobre passado, presente e futuro desse monstro sagrado no underground metálico nacional.

Ready to Rock - Na metade de 2015, o Vodu anunciou que ensaiava com antigos membros para um show comemorativo. Pode-se considerar essas reuniões como uma volta definitiva da banda?
André Góis - Acreditamos que sim, nossa intenção é de gravarmos um novo disco, já temos um repertório de dez canções entre novas e inéditas.

RR - Como foi fazer o primeiro show da volta (“Vodu 30 Anos”, em Outubro/2015, em São Paulo), após longo afastamento do Vodu dos palcos?
AG - Foi especial e muito bom. Não tocávamos juntos ao vivo havia 28 anos já... foi maravilhoso ver a nossa química intacta no palco, muito bom...
     
      RR - Dos membros que já atuaram na banda, a reunião de 2015 teve a presença de Andre Gois, de André Cagni e Sérgio Facci. Houve contato com os demais membros para essa reunião?
Sérgio Facci - Sim !! Entrei em contato com o Bruno Bomtempi Jr, o primeiro guitarrista, mas declinou, pois não iria conseguir assumir o compromisso; Victor Birner, outro guitarrista, por motivos profissionais (hoje é comentarista de futebol - N.R. Victor atua no programa Cartão Verde, da TV Cultura, dentre outros periódicos impressos) também não teria tempo; Claudio Victorazzo, por motivos de distância (esta morando no interior) e profissionais também..., enfim, todos gostaram da ideia, mas com os problemas profissionais de hoje em dia ficou mais complicado.

     RR - Veteranas bandas dos 80 têm se reunido para shows esporádicos, algumas planejando o lançamento de novos trabalhos. Existem planos para um full lenght inédito do Vodu?
     AG - Sim, como já disse, este ano ainda vamos gravá-los

     RR - André, Você deixou a banda após o primeiro disco (“Final Conflitct”, 1986). O que aconteceu àquela época?
     AG - Foram diferenças de opinião, desgaste na relação que já era longa, enfim, éramos garotos com interesses diferentes a partir de um determinado momento.

     RR - Porque a banda encerrou as atividades no começo dos anos 1990?
     André Cagni - A banda encerrou suas atividades em 1992, devido à divergências internas e musicais. Também sentíamos que o Vodu não estava com a mesma repercussão de antes, então o álbum "Endless Trip" foi como se fosse um ato final.


     
     RR - Quais suas melhores lembranças do passado da banda?
     AG - Os shows, as várias viagens que fizemos para tocar por todo Brasil...

     RR - Qual o disco que você mais gosta da banda em sua opinião e por quê?
     AG - O primeiro, obviamente, porque é o único em que estou cantando.

     RR - Como é se sentir veterano numa cena onde muitos músicos sequer haviam nascido quando a banda lançava seus primeiros trabalhos?
     AG - Natural, o tempo passa, a experiência chega. Mas isso não significa estar acima de ninguém, claro, é importante estar atento para aprender sempre, e a nova geração de músicos brasileiros está muito acima do que era no nosso tempo, temos muito o que aprender com eles.

     RR - Notícias dão conta que a banda trabalha em músicas novas. Como soaria uma música atual do Vodu hoje em dia, que conta com músicos mais experientes e com a tecnologia avançada em termos de produção, cenário bem distinto do que acontecia nos idos de 1986?
     AG - As músicas novas soam como um Heavy Metal clássico, se podemos chamar assim. Muito mais tradicional do que éramos antes quando estávamos sempre em busca de um diferencial, de uma coisa além no nosso som. Hoje nos preocupamos em fazer bem feito, mas sem exageros. Menos é mais, aprendemos. Todos nós somos melhores músicos hoje em dia, acredito. As músicas novas são ótimas!!



     RR - Uma gama de fãs da banda com quem converso tem a curiosidade. Existe a possibilidade de serem relançados em CD o “The Final Conflict”, o “Seeds Of Destruction” e o “Endless Trip”?
     AG - Por enquanto não sabemos de nada a respeito. Gostaríamos sem dúvidas de ver relançado o trabalho da banda em CD, quem sabe...

     RR - Como você compararia a cena metal dos 80 com a dos dias de hoje?
     AG - Difícil comparar né? É um outro mundo...outra vida. Se por um lado éramos mais unidos e tínhamos um movimento mais coeso no passado, tínhamos uma falta enorme de comunicação, de informação e material para podermos trabalhar o nosso som ou para conhecer novas bandas. Era necessário um esforço muito maior para conseguir informação, discos, instrumentos, etc...

     RR - Que bandas nacionais da atualidade mais lhe chamam a atenção?
     AG - Mesmo não sento tão nova o Torture Squad, as meninas da Nervosa, Jackdevil, Comando Nuclear, Fire Strike entre tantas outras...

     RR - Você atua também na antológica banda Desaster. Como estão as atividades da banda?
     AG - Estamos ainda no aguardo do lançamento do primeiro EP, "Eruption of Chaos", que confesso não ter data pra ser lançado ainda. Um ótimo trabalho tharsh metal de primeira, que infelizmente ainda está inédito.

     RR - O quer podemos esperar do Vodu daqui pra frente?
     AG - Esperamos continuar a compor, a gravar e tocar por aí...



     RR - Fique à vontade para deixar uma mensagem final para nossos leitores.
     AG - Quero agradecer a oportunidade de falar sobre o nosso som e gostaria de convidá-los a conhecer o nosso trabalho, vamos soltar uma demo nos próximos dias e em breve nosso novo disco. Aguardem!

    
     Formação Atual do Vodu
    
     André Gois - Vocal
     André Cagni - Baixo
     Sérgio Facci - Bateria
     Jeff Gouvea  - Guitarra
     Jose Luis Gemignani - Guitarra


     Contatos com a banda: https://www.facebook.com/vodu30anos


quarta-feira, 2 de março de 2016

Centro da Terra - recriando a aura psicodélica dos 70


O mundo da música, e especificamente, do rock and roll, concebeu diversos movimentos nos últimos 50 anos. Na década de 1960 celebrava-se a liberdade e a poesia, quando tais elementos foram emoldurados pela agressividade de um modelo sonoro embalado por guitarras cheias de distorção, bateria com timbres cada vez mais concisos e marcações de baixo que fugiram do esquema padrão do blues. Isso fez com que a psicodelia daquela geração gerasse bandas que soavam ao mesmo tempo, ácidas e lisérgicas. Passados cinco décadas, é cada vez maior o número de grupos que apostam nesse modelo, trazendo a nossos ouvidos, em pleno século 21, essa deliciosa sonoridade vintage, que nos faz vivenciar os sabores daquela época com um tempero da modernidade da produção musical dos tempos atuais. É nesse grupo de bandas que se encaixa o trabalho do Centro da Terra. Nascida em São José do Rio Preto/SP, a banda tem trilhado sua carreira por produções cheias de climas, psicodelia e referências poéticas aos mestres do passado.

Com cerca de seis anos de carreira, a banda tem em suas fileiras os irmãos Fred Pala e Guilherme Pala, na guitarra/voz e bateria, respectivamente e Zeca Mustang no baixo/backings. O Centro produziu dois trabalhos fonográficos. A banda lançou em 2013 um disco com músicas autorais, gravadas ao vivo no show "Tarde no Quintal", num modelo bem incomum de apresentar seu material autoral. De cara é louvável o resultado da captação, que deixou toda a sonoridade dos elementos por demais nítidos. "Ritual Elétrico" abre o álbum com sua levada groove comandada pelo baixo, e faz sua trajetória com uma aura a lá Mutantes, e mostra como características gerais do som banda, um trabalho de guitarra embasado em efeitos de wah-wah, principalmente. "Um Passado do Abismo" começa com a guitarra rasgando wah-wah a lá Hendrix. O trabalho vocal (assim como nas outras músicas) lembra bem as vozes que Leslie West fazia com o Mountain e em outros projetos que participou. O contraponto da bateria é outro elemento que costura a viagem da música. Um dos melhores destaques do disco tem um nome um pouco descolado, "Nada Seu ou Sei Lá". A faixa se inicia num clima calmo, para poucos segundos depois quebrar o andamento inicial e dar espaço para variações da bateria, entre idas e vindas do riff principal. "Hey" é uma boa referência sonora a trabalho de algumas antigas bandas nacionais de pré-rock progressivo como Casa das Máquinas e o Terço. "Vejo o Sol" traz uma linha de guita hora densa, hora balanceada e uma boa dose de dramaticidade na voz. Talvez a faixa mais pesada (no sentido de rock denso) do disco. Já "9" despeja sua batidas funkeadas e recheadas de efeitos. O disco fecha com "Godot", outra pedrada visceral com vocais nervosos e despojados, que servem de recheio para um desfile de viradas de bateria e distorção e solos carregados de efeitos.



É enfim uma trabalho inspirador, que parece ao mesmo tempo homenagear o clímax psicodélico do que se produziu antes e mostrar que a banda quer enraizar seu espaço no cenário rock brasileiro, armada com um som próprio, orgânico, cheio de estilo e alma.

Anteriormente, a banda havia soltado o CD "Ritual Elétrico Ao Vivo", produzido no estúdio Cia. do Som, com o auxílio do produtor Fernando Marques. O trabalho contou apenas com versões de nomes clássicos como Hendrix, Ten Years After, Mountain,  além de recriações de trabalhos de gente do Brasil como Gilberto Gil, Gal Costa e Jards Macalé, dentre outros. E conta ainda com uma faixa autoral, criada ali mesmo no estúdio, a bluesística "Have Mercy". Destaque para as matadoras versões de "Red House" (Hendrix), "Cold Shot" (Stevie Ray Vaughan) e "Mal Secreto" (Jards Macalé, um dos destaques do antológico disco "Gal a Todo Vapor", de Gal Costa).

Em 2014 a banda participou do aclamado festival "Psicodália", realizado anualmente em Rio Negrinho/SC, e sempre conta em seu cast com nome famosos do rock clássico da cena nacional.

Entre os planos atuais da banda, consta um projeto de crowfunding, que visa a produção de um novo álbum. Para falar desse e outros assuntos, a Ready conversou Fred Pala, guitarrista e vocalista do promissor grupo.

Ready to Rock - Em contato com seus trabalhos gravados, me deparei com CD ao vivo (Ao Vivo Tarde no Quintal") com composições de banda e outro de versões clássicas gravadas em estúdio ("Ritual Elétrico Ao Vivo"). Por que essa inversão?
Fred Pala - O cd ritual elétrico foi um convite de fazer uma jam em estudio como se fosse um show tocando algumas de nossas influências, na época inclusive estávamos em transição de baixista portanto esse álbum conta com o Vagner Siqueira baixista da Estação da Luz e o Zeca Mustang. Já o segundo foi gravado em um festival em que nos mesmos organizamos e contém apenas musicas autorais o nome do disco é o nome do festival.     

RR - As versões gravadas no estúdio, com produçâo do Fernando Marques, estão simplesmente fantásticas. Foi uma forma de homenagear suas influências?
FP - Exatamente tivemos um dia de gravação com um take para cada música, foi um show com influências da banda e apenas uma musica autoral, um blues que criamos na hora para passar o som.

RR -  O disco gravado ao vivo ("Tarde no Quintal"), tem uma qualidade sonora surpreendente. Vocês acertaram legal na captação. Qual o segredo dessa ótima qualidade?
RR - Foi captado de maneira muito simples com mics medianos, porém contamos com o pré de nossa mesa tascam 1978 e horas em cima da mixagem e masterização. Legal lembrar que tivemos a ajuda do Eduardo Palla na produção.



RR - Suas músicas autorais tem um nível de composição excepcional. Faixas como "Vejo o Sol" e "Nada Sei ou Seu Lá" (essa é minha favorita do disco) celebram o clima psicodélico, emoldurado por uma massa sonora visceral, coisa que os grandes mestre do rock ácido dos 60/70 faziam. Como é o processo de composição da banda?
FP - De forma bem natural, entramos no estúdio e ficamos horas em cima de ideias e improvisos. Os esboços trazidos são trabalhados juntos. Normalmente eu dou o estimulo inicial com harmonias e trechos de letras, o Guilherme sempre surge com sensacionais linhas de bateria e ideias e o Zeca completa com um grande feeling no baixo e opiniões que definem possíveis ideias divergentes entre eu e meu irmão.

RR - Ouvindo sua música sinto referência bem definidas de bandas como Hendrix, Mountain, Grand Funk (do início de carreira) e Ten Years After. Mas vejo diversos momentos que lembram o som brasileiro dos 70, como Som Nosso, o Terço e pela atmosfera, Mutantes. Qual o peso da música nacional em suas influências?
FP - Gigantesco diria, no início demoramos a dar valor ao nacional até porque muito se fala sempre das mesmas bandas, Led Zeppelin, Pink Floyd, Stones e tal... que também foram essenciais para nossa formação mas a descoberta do rock n roll setentista nacional mostrou que o Brasil também possuía grandes bandas de rock e isso nos trouxe um estimulo e um dever muito grande de cantar na nossa língua.

RR - Sabemos da realidade da produção de rock no Brasil e em Rio Preto. O rock clássico, voltado às raízes setentistas, praticado pela banda tem espaço e interesse na cidade?
FP - Nós 3 vivemos da música e tem sido muito difícil essa batalha porque todos os pubs querem que toquemos sempre as mesmas músicas manjadas, mas seria injusto falar que a culpa é só dos donos de bar a geração que vemos nas noites hoje não possuem cultura nenhuma de arte e música portanto querem ouvir sempre as mesmas que a mídia mostra.



RR - Pegando carona ainda na pergunta anterior, como você vê a realidade de uma banda autoral, domiciliada no interior de São Paulo?
FP - Mesmo na capital de duas uma ou a banda começa a tocar muitas versões de músicas conhecidas, o famoso "LADO A", ou terão que tirar seu sustento de outra forma.Portanto temos vivido assim mas sem ultrapassar a linha que consideramos o limite, afinal de contas fazemos para sobreviver mas principalmente porque amamos a musica, se um dia precisarmos tocar o que não gostamos eu mudaria de profissão.
O nosso som é de 70 para baixo, não tocamos nada dos anos 80 e posteriores que tem sido o que o grande público mais quer ouvir. Até porque achamos horrível os timbres dos anos 80, na nossa opinião houve um retrocesso gigantesco no jeito como se deveria timbrar e equalizar os equipamentos, os instrumentos deixaram de serem orgânicos e passaram a ter o mesmo som em todas as bandas. A bateria e os sintetizadores são os que mais incomodam.

RR - Como é tocar e levar a carreira da banda com dois irmãos na formação?
FP - Momentos bons e momentos difíceis, temos um entrosamento muito bom compondo e ao vivo, os improvisos parecem que foram ensaiados em muitos momentos, mas pelas dificuldades financeiras as vezes nos “desabafamos” um com o outro. Ainda bem que tem o Zeca que costuma ser o mediador em muitos momentos de stress.

RR - A banda acaba de lançar um projeto de crowdfunding (financiamento coletivo). Qual a expectativa e os planos para este processo?
FP - A expectativa é alcançarmos o valor de R$ 25.000, para lançarmos o primeiro trabalho em estúdio da banda em CD, vinil e DVD, que, além de shows do Centro, trará um documentário sobre a música independente no Brasil de hoje, com a participação de muitos artistas de vários estados brasileiros. Estamos nos dedicando ao máximo nessa empreita e precisamos muito do apoio de todos vocês. Através desse link vocês poderão ajudar e escolher seus prêmios.  www.catarse.me/centrodaterra

RR - O que podemos esperar de um novo trabalho autoral da banda?
FP - O primeiro trabalho com grande qualidade onde os ouvintes verão as músicas como nos as vemos. Apesar de termos gravado as bases juntos e ao vivo, tivemos tempo para acrescentar toda a gama de ideias que apenas três músicos ao vivo não podem passar. Imagine uma tela onde o artista plástico tem tempo para acrescentar camadas sobre camadas de ideias.

RR - A banda esteve envolvida tempos atrás com um espaço chamado "Centro de Psicodelia Cultural Lar de Maravilha", para apresentações e eventos relacionados à música e arte. Como está esse espaço?
FP -Tivemos por um ano a chance de termos um espaço totalmente voltado à cultura da região, realizamos muitos shows, exposições, cinema, jams... e inclusive tínhamos um estúdio denominado "Estúdio das Aranhas", dividíamos ele com várias aranhas, foi nesse estúdio que gravamos o nosso novo álbum. Moramos nesse espaço durante esse período e a ideia era realmente mantê-lo por um ano e produzir o máximo de material e eventos. Missão comprida.

RR - Quais os planos de médio e longo prazo da banda, e até onde pode chegar o Centro no cenário nacional?
FP - A ideia é ir o mais longe possível e compor o máximo de material que conseguirmos. Mantermos a força no caminho e acreditar que sempre iremos melhorar.

RR - Fique à vontade pra deixar um recado ao pessoal que acompanha nossas matérias.
FP - Galera o nosso som é a nossa vida e poder dividi-lo com vocês e ver que gostam é o que nos estimula a continuar na caminhada.Obrigado a todos e continuem ligados nesse espaço diferenciado que esta apoiando tantos artistas.


Outras informações sobre a banda: 
www.facebook.com/centrodaterrapowertrio
www.catarse.me/centrodaterra
http://centro-da-terra.wix.com/centrodaterra#!home/mainPage