sábado, 31 de dezembro de 2011

"Unpuzzle", do Maestrick, obra-prima do metal nacional



Riqueza Musical. Essa é a melhor definição para "Unpuzzle", o álbum de estréia dessa jovem mas excepcional banda Maestrick. A riqueza reside em cada detalhe do disco, a começar pelo primoroso trabalho gráfico. Um slipcase com uma moldura de frente, que permite o encarte se transformar em duas capas. E o encarte é carregado de caprichos artísticos entre as letras, cujo poster central mostra a banda como num quadro surrealista. Mas a grande arte na verdade se encontra dentro do disquinho prateado. Uma variedade musical, disposta em onze faixas, totalmente distintas umas das outras, muito bem compostas e produzidas.

A banda, original de São José do Rio Preto/SP, foi formada em 2004, e os músicos que atuam no álbum, lançado pela Die Hard Records, são Fábio Caldeira (vocal/teclado), Renato Montanha (baixo), Heitor Matos (bateria), Danilo Augusto e Maurício Figueiredo (guitarras).

Como funciona "Unpluzzle" junto a nossos ouvidos? As duas primeiras faixas, "H.U.C." e "Aquarela" constavam no EP que a banda lançou ano passado.
A primeira com seus riffs pesados e nuances de teclado, bem ao tempero do prog metal mesmo. Já a segunda, que considero o grande hit da banda, com grandes backings, navegando agradavemente pelas pelas águas do hard rock. Grande e grudento refrão e muitos solos fazem dela minha favorita do disco.

A adversidade continua no álbum. A próxima faixa, "Pescador", é uma prova irrefutável da maturidade da banda, que corajosamente, muda totalmente o clima com uma faixa em português, muito boa, que se introduz com um clima MPB, com incursões rítimicas que flertam com a brasilidade (algo próximo do que o Angra fez e muito bem).

"Sir Kuz" traz incursões eruditas, com mudanças harmônicas, o que nos remete a uma instituição musical que também primava pela variedade em seus discos, o Queen. A banda de May e Mercury é com certeza uma grande influência para os músicos do Maestrick. Visto que muitas faixas também abusam de uma forma bem feliz de coros vocais.

"Puzzler" brinca um pouco com o jazz em seus 2 minutos de duração, enquanto "Disturbia" tem rifferama pesada e cadenciada, onde os vocais se arriscam em momentos mais agressivos.

a próxima faixa, “Theasures of the World” traz momentos de calmaria, levadas pelo teclado, onde coros femininos temperam a música no que a banda chama de Mantra Choir.

“Radio Active” chega levada pelo baixo, e a quebrada nos andamentos, que por horas nos remete aos fraseados funkeados que por exemplo, o Glen Hughes adora fazer.

“Smilesnif” tem algo de Rush e as levadas de teclado e guitarra, remetem a precursores do metal progressivo, como Queensryche e Fates Warning, em sua sonoridade anos 80.

“Yellown of the Ebrium” começa calcada num espírito blues, com uma aura nostálgica, onde o vocal (aqui com Fabio dividindo os vocais principais com Yara Roberta), incorpora mesmo a aura boêmia e melancólica da letra, e lá pela frente você vai se deparar com um trecho em português emoldurado por uma levada samba/bossa nova.

E o desfecho do disco vem com todo explendor, com Lake of Emotions, uma peça de 21 minutos, dividida nove suítes, onde a banda chamou de níveis. Variações vocais, instrumentais intrincados e mudanças harmônicas constantes, num mesmo conceito lírico, trancando o trabalho com chave de ouro.

A banda toda soa afiada em Unpuzzle. Percebe-se ser fruto de muito estudo, dedicação e ensaio. Excepcional trabalho de bateria, guitarras inspiradas e baixo seguro, que junto com o caprichado trabalho vocal, fazem-se elementos que se complementam em prol da música.

Não é um trabalho fácil categorizar a banda num estilo. E acho que ninguém o fará com precisão. É música agradável, com a bandeira do heavy metal a frente, e um batalhão de influências e tendências por traz.

É aquele tipo de disco onde descobrimos coisas novas a cada nova audição. A banda não usou da variação como forma forçada de se provar a perícia e técnica apuradas, mas em prol da beleza artística da música.

Não devo dizer que o Maestrick é uma promessa, pois já é uma realidade. Um debut tão bem produzido e musicalmente surpreendente, com esse nível de maturidade, não se vê todo dia.

Deve, se já não estiver, cair nas graças imediatas do underground brasileiro, e tenho certeza de que os amantes de rock e metal do mundo inteiro vão consumir com prazer tal trabalho, se tiver acesso a ele.

Enfim, Unpuzzle é um disco apoteótico, grandioso e inspirador. Uma das maiores obras que o metal progressivo brasileiro já concebeu.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Comando Nuclear: Metal Nacional com muito Orgulho






A música rock nesses últimos 50 anos passou por muitas mudanças. Mesclou tendências, adquiriu riquezas de arranjos, flertou com outros estilos. Desenvolveu sub-estilos. E no metal também não foi diferente. A música pesada, com riffs simples e melodias grandiosas de gente como Sabbath, Judas e Maiden ganhou velocidade, arranjos variados, incursões eruditas, gerando assim novas tendências e por conseguinte, nova classe de consumidores. Mas a simplicidade genial e seminal dos mestres ainda é (e sempre será) reverenciada como a mais pura e objetiva arte da música pesada. Nesse contexto, muitas bandas hoje em dia praticam seu metal embasando seu direcionamento nos elementos básicos do estilo.

E isso ocorre com a banda paulistana Comando Nuclear. O título da banda e suas letras, criados em nossa língua pátria, os trabalho melódico das músicas e seu teor lírico agressivo transmitem ao ouvinte aquele cheiro de metal primordial criado em nossa terra no início dos anos 80. A rispidez de nomes como Harppia, Centúrias, Dorsal, Taurus e outras instituições de nossa música pesada, vem logo à mente quando ouvimos as canções do CD "Guerreiros da Noite".

As músicas, muito bem compostas e dispostas numa ótima produção, nos dão aquele prazer nostálgico de apreciar metal direto, pesado e rústico. Aí que reside a graça da coisa.

Ron Cygnus (vocal), Filippe Lawmaker (guitarra), Rodrigo Exciter (baixo) e Guilherme Incitatus (bateria) conceberam temas que grudam na memória. Remetem ao metal mais veloz praticado por bandas como Running Wild, Digger, Maiden e Manowar.
As quatro primeiras faixas (“Unidos pelo Metal”, “Princesa Infernal”, “Guerreiros da Noite” e Ritual Satânico”) são velozes e certeiras, e com certeza o destaque do play. O ponto alto pra mim é a faixa-título, com um excelente riff. As demais faixas seguem no pique, mas com mais cadência, Um detalhe curioso é “Ritual Satânico”, A empresa responsável pela prensagem do CD, recusou a fazê-lo, mesmo com contrato assinado, alegando que a música “fazia apologia à violência e sacrifícios humanos”. Censura barata e sem sal. O instrumental soa perfeito e limpo, onde os solos de guitarra se mostram melódicos, com aquele cheiro maravilhoso dos 80, e os vocais, peça tão importante nesse tipo de metal clássico, soam honesto e interessante, respeitando seus limites.

Este é o segundo trabalho da banda, que já havia lançado “Batalhão Infernal” em 2006.

Isso mostra que é possível criar música que soa nova e nostálgica ao mesmo tempo. Pra alguns vão ser taxados de cópia e até de ingênuos, para outros - onde me insiro - é uma saudável reverência e honestidade em favor da satisfação sonora do metal. Sabe aqueles CDs que você não cansa de ouvir? Este é um, muito mais interessante do que muito trabalho novo de megabanda por aí. Em tempo: ouvi muito mais “Guerreiros da Noite” do que “The Final Frontier”.




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